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SABIA QUE… O JARDIM DE S. LÁZARO NÃO SE CHAMA ASSIM?

SABIA QUE… O JARDIM DE S. LÁZARO NÃO SE CHAMA ASSIM?

 

Revisitamos algumas edições de O TRIPEIRO dos últimos anos, a centenária revista da Associação Comercial do Porto que é guardiã da história e do património da cidade desde 1908. Neste caso, espreitamos a edição de agosto de 2013.

 

Pode adquirir as edições mensais da revista O TRIPEIRO nos serviços do Palácio da Bolsa através dos contactos disponíveis na página de Facebook da Associação Comercial do Porto.

 

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Espaço Urbano

 

O primeiro jardim da cidade

  1. Lázaro, a memória de um lugar

 

Aquele que é hoje oficialmente designado por jardim Marques de Oliveira, mas conhecido popularmente por jardim de S. Lázaro, remonta a sua localização ao período medieval, no percurso que seguia do burgo para Penafiel, mas ainda afastado do núcleo populacional que definia a cidade. A sua morfologia urbana resulta de um processo que se estendeu por um longo período de tempo, de tal maneira que só ficou consolidado no final do século XIX.

 

Ao longo do século XIX foram aprovados diversos desenhos de ordenamento de conjunto de fachadas para os edifícios envolventes ao jardim de S. Lázaro, nomeadamente para o seu lado norte e poente, uma vez que o seu lado sul e nascente estavam já definidos, respectivamente, pelo edifício do Recolhimento das Órfãs e pelo edifício do Convento de Santo António da Cidade, agora transformado em Biblioteca Municipal.

No sentido de consolidar o jardim de S. Lázaro num elemento urbano de referência e organizador de toda a zona envolvente, são também aprovados neste período diversos projectos de abertura e regularização de arruamentos, sendo em 1835 aprovado o alinhamento da rua do Reimão, actual avenida Rodrigues de Freitas, bem como a continuação da rua de S. Vítor até ao jardim. Nesse mesmo ano é também aprovado o plano para regular o alinhamento da rua do Mede Vinagre, futura rua da Murta, actual rua Morgado Mateus, desde S. Lázaro até ao Poço das Patas (Campo 24 de Agosto).

Contudo, uma das zonas sobre a qual se efectuaram mais projectos foi a ligação norte/sul, junto ao edifício da biblioteca, nomeadamente no que diz respeito à abertura e alinhamento daquela que ficaria conhecida inicialmente por rua Duqueza de Bragança, atual rua D. João IV. Na segunda metade do século XIX sucederam-se vários projectos para este arruamento, sendo no entanto possível observar já a sua existência na conhecida planta de Telles Ferreira de 1892. Nesta planta constata-se igualmente a definição do espaço do jardim e da zona envolvente numa morfologia muito próxima da actual, à excepção da existência do antigo largo de S. André e do edificado onde posteriormente veio a ser criada a actual praça dos Poveiros.

No início do século XX, estando o espaço do jardim de S. Lázaro consolidado, a Câmara Municipal decide avançar com a demolição de alguns edifícios para extensão e ligação de arruamentos existentes. Neste sentido, em 1911 é aprovado um projecto da secção de arrumamentos “na área da cidade comprehendida entre a Praça da Batalha e a Rua Duqueza de Bragança” que incluía o prolongamento da avenida Rodrigues de Freitas até à igreja de Santo Ildefonso, num projecto que veio no entanto a não realizar-se, tendo sido porém efectuadas algumas demolições que originaram o espaço hoje conhecido por praça dos Poveiros. A demolição deste edificado revelar-se-ia um erro urbanístico destruindo parte da leitura da rua de Santo Ildefonso, mas principalmente da rua de Santo André, criando um vazio incompreensível porque até aí inexistente.

A partir de 1930, principalmente após a instauração do Estado Novo, cria-se em Portugal um novo quadro de actuação política que marcará o país ao longo das décadas seguintes. Ao nível do desenvolvimento urbano foi publicado, em 1932, o Prólogo ao Plano da Cidade do Porto, da autoria do engenheiro Ezequiel de Campos, do qual fazia parte uma planta intitulada “Esquisso de reforma do centro actual da cidade do Porto”, onde se observa a intenção de reformular alguns arruamentos e quarteirões na zona envolvente ao jardim de S. Lázaro, nomeadamente pelo prolongamento da rua Duque de Loulé e da avenida Rodrigues de Freitas.

Não se efectuando as sugestões do Prólogo de Ezequiel de Campos, foi estabelecido em decreto-lei de 1934 a elaboração do “Plano Geral de Urbanização e Expansão da Cidade”, impondo-se a conclusão do mesmo até final de 1939. Em 1938, e face ao atraso na sua elaboração, a Câmara Municipal propõe a contratação, a título de consultor, de um urbanista estrangeiro para definir as linhas estratégicas do plano a realizar pelos Serviços Técnicos. Dada a proximidade ideológica do Estado Novo ao regime de Mussolini, é contratado o arquiteto italiano Marcello Piacentini, cuja colaboração se estendeu apenas até 1940, tendo nesse mesmo ano a Câmara decidido contratar um outro arquiteto italiano, o arquiteto Giovanni Muzio. Após uma breve visita que fez à cidade, foi enviado ao município o primeiro esquema geral onde se apontava, para além de outras propostas, a intenção de criar uma ligação entre a zona de S. Lázaro/Poveiros e a praça Carlos Alberto segundo um longo eixo transversal à avenida dos Aliados. Contudo, dada a evolução da Segunda Guerra Mundial e principalmente a morte do ministro Duarte Pacheco, tal plano não seria concretizado, terminando a colaboração do arquiteto Giovanni Muzio com o município em 1943. Após este período, a elaboração do plano só seria retomada em 1945, ficando encarregue da continuação dos trabalhos o engenheiro Antão Almeida Garrett. Seria no entanto o Plano Director da Cidade do Porto, de Robert Auzelle, publicado em 1962, que mais marcaria a cidade na segunda metade do século XX, destacando-se desse plano a proposta elaborada para praça dos Poveiros que previa a construção de um edifício de 14 pisos no alinhamento da rua Passos Manuel.

Apesar de todos estes planos, o progressivo abandono e consequente degradação do património arquitectónico da cidade ao longo da segunda metade do século XX, conduziu cada vez mais o jardim de S. Lázaro a um espaço pouco utilizado e gradualmente marginalizado. No final do século apresentava já uma certa decadência, não tanto ao nível do seu espaço mas principalmente da zona envolvente, arrastando-o para uma situação de pouca dignidade. A sua recuperação terá necessariamente que passar pela recuperação do edificado envolvente e pelo tipo de utilização que lhe está afeto, não pensando o jardim como uma peça avulso mas como reflexo daquilo que o rodeia. Por vezes tende-se a querer resolver este tipo de problemas com respostas unitárias, com propostas pontuais que descaraterizam completamente os espaços. Contudo, o jardim de S. Lázaro, como espaço urbano consolidado, representa um período histórico da cidade que terá de ser obrigatoriamente preservado sob pena de perder a sua própria identidade. A importância deste espaço no desenvolvimento e organização de toda a zona envolvente tornou-o um elemento urbano de referência na cidade, marcando não só a memória de um tempo mas principalmente de um lugar.

 

(texto de Ricardo Silva, arquiteto)