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SABIA QUE… A FONTE DA MOURA EXISTIU MESMO, MAS DESAPARECEU EM 1915?

SABIA QUE… A FONTE DA MOURA EXISTIU MESMO, MAS DESAPARECEU EM 1915?

 

Revisitamos algumas edições de O TRIPEIRO dos últimos anos, a centenária revista da Associação Comercial do Porto que é guardiã da história e do património da cidade desde 1908. Neste caso, espreitamos a edição de dezembro de 2013.

 

Pode adquirir as edições mensais da revista O TRIPEIRO nos serviços do Palácio da Bolsa através dos contactos disponíveis na página de Facebook da Associação Comercial do Porto.

 

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Lendas do Porto

 

O segredo da Fonte da Moura

 

O património imaterial encontra-se, não raras vezes, profundamente ameaçado. Usos e costumes tradicionais, músicas e narrativas populares vão-se perdendo por entre os nossos dias apressados, intensos e globalizados. E assim se vai consumindo parte da memória das comunidades. Mesmo quando esta assenta em episódios lendários. Vem isto a propósito da lenda que explica o topónimo de uma área bem conhecida da cidade do Porto: a Fonte da Moura. Prestes a perder-se irremediavelmente (em boa verdade pensávamos já que dela não haveria testemunhos), eis que conseguimos, quase “in extremis”, registá-la e salvaguardá-la neste precioso repositório da memória portuense que é O TRIPEIRO.

 

Há muito, muito tempo. Numa época em que mouros e cristãos povoavam, conjuntamente, as cercanias do Porto…

As gentes do lugar olhavam num misto de incredulidade, mas também de impotência e de infelicidade, para a antiquíssima fonte. Do interior da fenda rochosa, estreita e inacessível, da qual desde sempre brotara a água que saciava a comunidade, não corria agora nenhum líquido. A fonte secara!

O fenómeno, no entanto, não surpreendeu muitas das pessoas que sabiam, há já muito tempo, do segredo guardado nas entranhas desta fonte. No seu interior enclausurara-se há já alguns anos, e por vontade própria, uma bela jovem moura. Como havia conseguido penetrar no interior daquela mina de água – coisa que jamais alguém conseguira concretizar, dadas as estreitas e reduzidas dimensões da fenda – era um segredo que ninguém conhecia. Como que a mãe natureza, num gesto de cumplicidade, permitira excepcionalmente e por uma única vez, que um ser humano se conseguisse infiltrar no âmago da fonte e aí se esconder. Esconder, sim. Já que a jovem e bela moura encontrara aí o refúgio e a segurança que o mundo exterior não lhe proporcionava.

Recuemos pois mais alguns anos para perceber o que levou a jovem a esta clausura.

Não obstante ser um tempo em que mouros e cristãos partilhavam o mesmo território, ditavam ainda os usos e costumes e a fé de uns e de outros que não se deveriam misturar para lá das conveniências estritamente necessárias. E por isso a paixão e o casamento entre elementos das duas comunidades era algo tradicionalmente inaceitável.

Aconteceu porém, porque de facto o coração tem razões que a razão desconhece, que uma jovem e bela moura se enamorou por um garboso e jovem cristão. Tinham cruzado o seu olhar pela primeira vez junto daquela fonte e de imediato se apaixonaram mutuamente.

Os dias foram passando e os amantes esconderam a sua paixão das restantes pessoas, juntando-se às escondidas em rápidos e clandestinos encontros. Porém os seus amores proibidos foram descobertos pelo desconfiado pai da jovem que, de imediato, a fechou em casa e repreendendo-a ferozmente, recorrendo mesmo à violência, a proibiu de voltar a avistar o seu amado, ameaçando mesmo que se o voltasse a ver pelas redondezas o mataria.

Mas porque, com o passar dos dias, os castigos e as ameaças prosseguiam, virando-se a ira do pai também para a sua mãe e irmãs, a jovem começou a congeminar um plano de fuga. Sabendo que não tinha meios que lhe permitissem escapar para algum sítio longínquo, mas também porque tinha a esperança de que o seu amado a procurasse, decidiu esconder-se no interior da fonte. Era perto de casa e permitiria um esconderijo perfeito. Água não lhe faltaria e sabia também que, quando vislumbrasse algum conhecido e amigo, lhe poderia pedir de comer. O mais difícil seria conseguir esgueirar-se para o interior da mina, mas confiava na sua silhueta grácil e ágil para o conseguir.

Definido o plano, que não partilhou com ninguém, esperou pacientemente por uma breve desatenção do seu pai que lhe permitisse a almejada fuga. Coisa que, efetivamente, aconteceria pouco tempo depois. O objectivo estava bem definido e por isso não hesitou um único segundo. Rapidamente se escapuliu para fora de casa e, certificando-se que ninguém a via, correu o mais rápido que pôde até à fonte e, como que miraculosamente, conseguiu entrar para o seu interior.

Nos muitos dias seguintes em vão a procuraram. Pai, familiares, vizinhos, amigos e, secretamente, sem que ninguém o identificasse, o jovem cristão apaixonado. Escondida no interior da mina de água a moura não deu sinal de vida. Tal como havia previsto a água não lhe faltava e, quando a fome a invadiu de um modo insuportável, acabou por fazer chegar a sua voz, das profundeza da fonte, aos ouvidos de duas ou três pessoas amigas a quem lhes pediu comida e a quem fez jurar que jamais revelariam o seu segredo e refúgio.

Os dias e as semanas foram passando e, persuadidos que a jovem escapara para bem longe, familiares e conhecidos deixaram de a procurar. E o mesmo aconteceu com o seu apaixonado que, desesperado mas sem nunca se revelar, durante longas jornadas calcorreou o território à volta da casa da sua amada. Sem nunca, no entanto, se abeirar da fonte, convencido que estava de que aí ninguém se poderia esconder.

Entretanto, e apesar das inegáveis provas de amizade por parte das pessoas que a iam alimentando e que nunca a denunciaram, a moura nunca lhes revelou o nome e paradeiro do seu amado. Por muito que insistissem e lhe afiançassem que, com toda a segurança e secretismo, o avisariam do local onde ela se enclausurara para que a viesse resgatar, a verdade é que a jovem nunca pronunciou o seu nome nem deu a mínima indicação sobre a sua morada. Tendo sempre muito presente as ameaças do pai, e temendo pela vida do jovem cristão, optou conscientemente por esconder a identidade do seu amante. No fundo e secretamente tinha a esperança que mais tarde ou mais cedo ele acabaria por passar junto da fonte e, só então e só a ele, revelaria o seu esconderijo.

Mas ele nunca apareceu…

Os dias deram lugar às semanas, as semanas aos meses, e estes a alguns anos. Mas quando insistiam com a moura para que saísse do interior da fonte ou identificasse quem era o seu amado, a jovem afirmava que ali preferia morrer a revelar o seu segredo. Morreria de amor, se assim fosse necessário…

E foi isso que aconteceu. Decorridos alguns anos, desgostosa a jovem começou a definhar. Já raramente falava com quem lhe levava comida e só muito raramente a vinha procurar à boca da fonte.

Entretanto, e numa mágica sintonia com a dor da moura, também a fonte começou paulatinamente a disponibilizar cada vez menos água. Quanto mais a jovem atrofiava mais o líquido ia escasseando.

E chegou o dia em que a fonte se apresentou totalmente seca. Fenómeno que, no entanto, não surpreendeu as pessoas que sabiam do segredo guardado nas entranhas da fonte. E que, tristes, perceberam também o que acabara de se consumar: a jovem moura morrera de desgosto.

E foi então que ouvidos mais atentos escutaram um gotejar vindo das recônditas profundezas da galeria. Gotas que jamais correriam para a fonte, mas que continuariam a brotar por toda a eternidade… eram as lágrimas de infelicidade da bela moura, morta por amor no interior da fonte.

 

Da lenda à realidade

 

O património imaterial encontra-se, não raras vezes, profundamente ameaçado. Usos e costumes tradicionais, músicas e narrativas populares vão-se perdendo por entre os nossos dias apressados, intensos e globalizados. E assim se vai consumindo parte da memória das comunidades. Mesmo quando esta assenta em episódios lendários. Vem isto a propósito da lenda narrada nas linhas anteriores e que explica a origem do topónimo de uma área bem conhecida da cidade do Porto: a Fonte da Moura, pequeno lugar da freguesia de Aldoar, próximo da confluência das atuais avenidas da Boavista e de Antunes Guimarães. Prestes a perder-se irremediavelmente (em boa verdade pensávamos já que dela não haveria testemunhos), eis que conseguimos, contudo, quase “in extremis”, registá-la e salvaguardá-la neste precioso repositório da memória portuense que é O TRIPEIRO.

Com efeito, e depois de diversos anos de pesquisas e perguntas/entrevistas, nomeadamente junto dos mais idosos habitantes do local, quase desistíramos da possibilidade de virmos a conhecer a lenda que estaria associado ao topónimo. Estaria irremediavelmente perdida…

Muito recentemente, no entanto, no âmbito da disciplina de Património da Universidade Douro Sénior (na Foz do Douro), cujo docente é o autor destas linhas, a lenda foi narrada por Adelina Magalhães Adelina Magalhães, que residiu durante alguns anos nas proximidades da Fonte da Moura e que ouviu esta narrativa tradicional contada por Fausto de Guimarães, tio do seu marido, que faleceu já nos inícios do século XXI com 92 anos de idade.

A fonte, segundo esta recolha de Adelina Magalhães, localizar-se-ia nas proximidades do entroncamento da Rua da Fonte da Moura com a Rua da Vilarinha. Tal facto foi-nos igualmente referenciado pelo Engº Mário Pinho, residente no local e que, embora desconhecedor dos pormenores da lenda, ouviu referências à fonte, seca, da moura e à sua localização, através de sua mãe, Amélia Augusta Moreira do Vale Pinho, falecida com 104 anos em 2009. Também na sua “Monografia de Aldoar”, editada em 2000, Júlio Couto refere (pág. 231) que na rua da Fonte da Moura existiu uma fonte que, já em 1904, se encontrava seca e que a mesma terá desaparecido por volta de 1915.

Assim, e independentemente da lenda, é evidente que existia neste lugar, até ao início do século XX, uma fonte muito antiga. Da sua significativa antiguidade é testemunha a designação que há muito havia merecido: “da Moura”. Não porque se tratasse realmente de uma estrutura do período da ocupação islâmica na nossa região, mas porque, popular e tradicionalmente, as nossas comunidades atribuíam aos “mouros” tudo aquilo que era muito antigo ou que a sua memória não conseguia explicar. Como os arqueólogos muito bem sabem (e utilizam como preciosas indicações), regra geral no norte do país a atribuição aos “mouros” de um determinado vestígio significa que poderemos estar em presença de testemunhos de épocas bem mais antigas…

Um dado muito curioso desta lenda, que a afasta de outras associadas a mais algumas “fontes de mouras” existentes no nosso país, mas que neste caso vinha sublinhar a realidade, é o facto de esta narrativa “explicar” o porquê desta fonte se encontrar seca – facto que, como já referimos, está perfeitamente documentado no início do século XX.

Desaparecida a fonte, ou o que dela já apenas restava, por volta de 1915, a memória da lenda foi-se também perdendo, já que o pretexto “material” que a salvaguardara e a perpetuara ao longo dos tempos deixara de existir. E assim, quase um século depois, como tivemos oportunidade de o comprovar, falando no lugar com dezenas de pessoas, incluindo os seus mais velhos residentes, já não há no local quem conheça ou recorde a lenda da fonte. Mas, mesmo desconhecedores de tal narrativa, persiste entre eles a “convicção” de que existiu no local uma antiga fonte, do tempo dos mouros. É uma “memória” muito ténue e que só sobreviveu graças à persistência do curioso topónimo. Como vão sobrevivendo ainda, junto às ruas da Fonte da Moura e da Vilarinha, delicados e frágeis testemunhos do passado bucólico e rural que durante séculos caracterizou esta área da cidade. Velhos muros graníticos, habitações de tipologia tipicamente agrícola, bouças prodigiosamente sobreviventes entre a floresta de prédios que as cercam e… quem sabe?… um ou outro pequeno riacho alimentado pelas lágrimas que continuam a gotejar de uma moura que, por amor, se encerrou e morreu no interior de uma fonte…

 

(texto de Joel Cleto, arqueólogo)