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SABIA QUE… EÇA DE QUEIRÓS ESTUDOU NO COLÉGIO DA LAPA?

SABIA QUE… EÇA DE QUEIRÓS ESTUDOU NO COLÉGIO DA LAPA?

 

Revisitamos algumas edições de O TRIPEIRO dos últimos anos, a centenária revista da Associação Comercial do Porto que é guardiã da história e do património da cidade desde 1908. Neste caso, espreitamos a edição de janeiro de 2013.

 

Pode adquirir as edições mensais da revista O TRIPEIRO nos serviços do Palácio da Bolsa através dos contactos disponíveis na página de Facebook da Associação Comercial do Porto.

 

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Olhar e Ver

 

Eça de Queirós e o Porto

 

Eça de Queirós não nasceu no Porto. Mas nesta cidade viveu alguns dos momentos mais marcantes da sua vida. Por exemplo: foi no Porto que desenvolveu uma parte significativa da primeira fase da sua formação escolar; e foi no Porto que casou com D. Emília de Castro Pamplona, filha dos condes de Resende, que habitavam a bela quinta de Santo Ovídio.

 

José Maria de Eça de Queirós nasceu no dia 25 de Novembro de 1845, na Praça do Almada, 1 a 3, na Póvoa de Varzim. O local do nascimento daquele que viria a ser um dos maiores escritores portugueses não é consensual. Há quem defenda que Eça nasceu em Vila do Conde. Isto não obstante as peremptórias afirmações feitas em contrário pelo próprio pai em 31 de Agosto de 1900 e por sua mãe, em 6 de Novembro de 1906.

O registo de batismo, que foi feito em Vila do Conde, em 1 de Dezembro de 1845, tendo como padrinho o senhor dos Aflitos; e como madrinha Ana Joaquina Leal de Barros, diz o seguinte: “José Maria … filho de José Maria de Almeida Teixeira de Queirós e de mãe incógnita…”

Bom, mas não é destes dares e tomares que pretendemos falar. É da ligação do Eça ao Porto.

Parece que os primeiros cinco anos foram passados na Póvoa, aos cuidados da sua madrinha de baptismo. Depois, e até fazer dez anos, foi viver para Verdemilho, em Aveiro, com a sua avó paterna, D. Teodora Joaquina de Almeida, que entretanto enviuvara do conselheiro Joaquim José de Queirós e Almeida.

Em 1855 aparece. Que se saiba, pela primeira vez no Porto, onde é matriculado como aluno interno no Colégio ou Liceu da Lapa, então dirigido por Joaquim da Costa Ramalho, pai de Ramalho Ortigão, que chegou a dar aulas de francês ao futuro autor de “Os Maias”. Deste convívio, chamemos-lhe assim, nasceu entre Eça e Ramalho uma forte amizade que havia de os acompanhar  por muitos anos.

Foi no colégio da Lapa que Eça conheceu dois filhos dos condes de Resende, Luis e Manuel, dos quais também se tornou amigo. E terá sido através deles que Eça passou a frequentar a já referida Quinta de Santo Ovídio, onde viria a conhecer a sua futura noiva.

A Quinta de Santo Ovídio estendia-se desde a rua de Cedofeita até ao antigo Campo de Santo Ovidio, atual Praça da República. Foi através dela que, em finais do século XIX, se rasgou e urbanizou a Rua de Álvares Cabral, onde existem das mais belas moradias daquele período, recentemente classificadas como de Interesse Público.

A enorme propriedade não era estranha a Eça de Queirós, junto da qual passava sempre que, na sua infância, descia da Lapa para visitar uma tia materna que vivia na Rua de Cedofeita. Tratava-se de uma bela e vastíssima quinta com enormes parques, campos de cultura e jardins. Eram seus proprietários os condes de Resende e à altura era considerada a mais bela quinta do Porto. Em certos domingos, alguns dias festivos e dias santos de guarda, os donos da quinta franqueavam-na  ao público, que para lá ia passear e comer as merendas.

O palacete que era a residência daqueles titulares possuía uma capela interior, e foi nela que no dia 10 de Fevereiro de 1886 se celebrou o casamento religioso de Eça de Queirós com D. Emília de Castro. Ele tinha 40 anos e ela apenas 28. Testemunharam o ato um irmão da noiva, D. Manuel de Castro (Pamplona), conde de Resende; e a condessa do Covo. Assistiram, além da mãe da noiva, outras pessoas e Ramalho Ortigão, amigo íntimo do noivo. É muita curiosa a carta, datada de Londres de14 de Outubro de 1885, que Eça escreveu a Ramalho Ortigão a participar-lhe o casamento e a convidá-lo para a cerimónia. Ora vejam: “Meu querido Ramalho. Não se queixe de ter lido na imprensa a noticia que só devia receber em autógrafo meu. Antes ponha reverentemente as mãos e dê graças a Jeová ou a Júpiter, segundo as suas crenças, por viver num país em que a imprensa é uma instituição tão diligente que sabe as novas que interessam aos cidadãos antes mesmo quase dos cidadãos as saberem. O coração tem os seus arranjos – mas a vida tem os seus cerimoniais; e o casamento com a Emília, decidido entre ela e eu, naquele segredo que pedem estas decisões, não tinha existência exterior, nem era  anunciável sem que tivesse recebido a sanção do senhor Cordeiro de Resende …”. Já naquele tempo havia fugas de informação…

Um mês depois daquela carta de Londres, Eça de Queirós estava no Porto, hospedado no Grande Hotel de Paris, ainda existente, na Rua da Fábrica,  de onde mandou , porventura por um galego, como era costume da época, um bilhetinho à sua noiva em que dizia isto: “Minha querida Emília. O dia está medonho – e vós deveis talvez utilizá-lo acabando de curar o vosso rhume. No meu quarto há ribeirinhos de água correndo bucolicamente e regando as flores do tapete… With love – and love again yours José”.

E não ficou sem resposta. Emília respondeu desta maneira: “Querido José, quando se cansar da paisagem bucólica do seu quarto, venha para a sala do fogão…”.

E a 25 de Novembro, dia em que fazia 40 anos, Eça, ainda do Grande Hotel de Paris, respondeu a novo bilhetinho: “ Minha adorada Emília, o encantador bilhete não me veio acordar – mas veio-me fazer achar o dia mais bonito e a situação de fazer anos deliciosa. Merci de tout coeur, ma douce chérie et pour les parabéns  –  et pour le reste… Teu fiel José”.

Em Setembro de 1884, de férias do consulado de Bristol, Eça está no Porto. Frequenta as quintas de Santo Ovidio e a Quinta de Canelas, próximo da Granja, cuja praia frequentava na companhia de D. Manuel de Castro Pamplona, conde de Resende e irmão de D. Emilia Castro Pamplona, com quem o escritor viria a casar.

No Porto encontra-se com Ramalho, Antero, Oliveira Martins e Guerra Junqueiro. É o Grupo dos Cinco que, além dos jantares no restaurante do Palácio de Cristal, se reúne, amiúde, na Casa da Pedra, residência de Oliveira Martins nas Águas Férreas.

Da presença de Eça no Porto, há ainda a registar a sua passagem pelo Grande Hotel do Porto, de onde escrevia a Ramalho a tratar de assuntos relacionados, por via de regra, com os editores. Como esta carta de 18 de Julho de 1883, datada do Grande Hotel do Porto: “Querido Ramalho, esqueci-me dizer-lhe que eu prometi ao Chardron – como você me tinha dito – que a sua reclame no Brasil sobre “O Maias” ficava às ordens do dito Chardron…”.

Um ano mais tarde (1884), do seu quarto do Grande Hotel do Porto “com vista para a Rua de Santa Catarina”, Eça escrevia aos seus amigos Bernardo e Vicente, futuros conde de Arnoso e visconde de Pindela, uma carta de cuja leitura se deduz que ele (Eça) e mais os seus amigos conde de Ficalho e Ramalho Ortigão tinham visitado pouco antes o solar de Pindela, perto de Famalicão…

Setembro de 1989. A urna com os restos mortais de Eça de Queirós passa pelo Porto a caminho do cemitério de Santa Cruz do Douro. Uma pequena cerimónia, na Praça da Batalha, a que assistiram as entidades mais representativas da cidade, presta uma última homenagem do Porto ao insigne homem de letras.

 

(texto de Germano Silva, jornalista e historiador)