Publicações

SABIA QUE… HOUVE MESMO UMA BATALHA, NA BATALHA, ENTRE MOUROS E CRISTÃOS?

SABIA QUE… HOUVE MESMO UMA BATALHA, NA BATALHA, ENTRE MOUROS E CRISTÃOS?

 

Revisitamos algumas edições de O TRIPEIRO dos últimos anos, a centenária revista da Associação Comercial do Porto que é guardiã da história e do património da cidade desde 1908. Neste caso, espreitamos a edição de novembro de 2013.

 

Pode adquirir as edições mensais da revista O TRIPEIRO nos serviços do Palácio da Bolsa através dos contactos disponíveis na página de Facebook da Associação Comercial do Porto.

 

… …

 

Olhar e Ver

 

Nossa Senhora da Batalha

 

O título de Nossa Senhora da Batalha anda ligado a uma batalha que aconteceu no sítio da atual praça da Batalha (a denominação vem daí) entre os mouros de Abdarraman e os cristãos do conde Hermenegildo. Mas nada há, presentemente, na praça da Batalha, que nos faça lembrar as capelas que ali existiram da invocação de Nossa Senhora da Batalha. Com efeito, em 1793 a capela inicial foi demolida por ordem de Francisco de Almada e Mendonça, espécie de governador civil da época. E o novo templo construído imediatamente a seguir seria demolido há cerca de cem anos, mais precisamente em 1920.

 

 

Nada há, hoje, na praça da Batalha, que nos lembre a capela que ali existiu da invocação de Nossa Senhora da Batalha. Aliás, duas capelas.

A primeira remontaria ao século XVI. Segundo conta Pinho Leal, no seu “Portugal Antigo e Moderno”, terá sido construída em 1590, no espaçoso largo já então chamado da Batalha e que ficava da parte de fora da muralha, “junto à porta de Cima de Vila, ou da Batalha”. Hoje podemos situar esse local como tendo ficado, sensivelmente, à entrada da atual rua da Madeira.

A porta, como facilmente se depreende, estava aberta no pano da muralha fernandina. Era constituída por duas fortes torres que defendiam a entrada da rua de Cima de Vila, uma das mais importantes da cidade.

A capela, de estilo renascentista, era de granito e tinha o interior todo forrado de azulejos. Possuía três altares. No principal estava a imagem da padroeira; no segundo, a de Nossa Senhora dos Remédios; e, no terceiro, a de S. José.

As imagens da Senhora da Batalha e da Senhora dos Remédios tinham estado, antes, num oratório que havia numa das torres da porta de Cima de Vila.

Segundo uma velha tradição, as imagens da Senhora da Batalha e da Senhora dos Remédios, juntamente com a de Nossa Senhora de Vandoma, haviam sido trazidas para o Porto por D. Nónego Viegas, que viria a ser bispo do Porto. Veio acompanhado por um grupo de gascões, no tempo do rei D. Ramiro III de Leão (965-984), com o propósito de reconstruírem o velho Portucale.

Num opúsculo que publicou em 1893, o padre Francisco Patrício diz o seguinte, referindo-se à imagem de Nossa Senhora da Batalha: “… Senhora da Batalha da Torre de Cima de Vila, venerada na sua capela; a cujo patrocínio deve o Porto e a sua comarca, concelhos de Resende e Benviver, o libertá-los dos mouros. Trouxe-a o conde D. Moninho (Nónego) Viegas quando conquistou estas terras em 983…”

As condições em que as imagens estavam no oratório da torre não eram, no entanto, as melhores. A humidade, sobretudo, estava a causar sérios estragos nas duas figuras e foi isso que levou as autoridades a transferirem – nas para o interior da capela.

O título de Nossa Senhora da Batalha anda ligado a uma batalha que aconteceu no sítio da atual praça da Batalha (a denominação vem daí) entre os mouros de Abdarraman e os cristãos do conde Hermenegildo.

Havia um costume antigo de se colocar as portas da cidade sob a proteção de um santo ou da Virgem. Na muralha fernandina colocou-se, na porta da Batalha, Nossa Senhora da Batalha; na de Carros (em frente aos Congregados), Nossa Senhora da Consolação; na do Olival, S. Miguel o Anjo; no postigo da Esperança (S. João Novo), Nossa Senhora da Conceição; na porta de Miragaia, Nossa Senhora do Socorro; e na da Ribeira, Nossa Senhora do Ó.

A partir de 1712, e durante vários anos, a capela de Nossa Senhora da Batalha serviu de paroquial enquanto se construía a moderna igreja de Santo Ildefonso.

Outras importantes instituições da cidade passaram pela pequena ermida da praça da Batalha. Foi nela que se fez, em 1736, a reunião da qual havia de sair a fundação da Ordem Terceira de Nossa Senhora do Carmo. E ali funcionou, também, entre 1755 e 1796, a Ordem da Trindade depois de ter sido expulsa da sua igreja anexa ao mosteiro de S. Domingos.

Na capela da Batalha funcionava, desde remota era, uma confraria organizada segundo o regimento “dos mesteres da Casa dos Vinte e Quatro”, pelos sirgueiros, que se haviam constituído em irmandade, em 1743, na capela do Recolhimento do Anjo que ficava perto do local onde se andava a construir a igreja dos Clérigos. Aos sirgueiros juntaram-se, posteriormente, os botoeiros da confraria de Sant’Ana. Esta irmandade tinha sido fundada, em 1737, pelos daquele oficio, junto do arco de Sant’Ana de que ainda restam vestígios na rua que leva o mesmo nome, em pleno bairro da Sé.

Desde 1724 que a capela de Nossa Senhora da Batalha era administrada pela Câmara. Na parte de trás do pequeno templo ficava o velho hospital dos Entrevados de Cima de Vila, separado da capela pela travessa que chamavam, exatamente, dos Entrevados. E fronteiro a este hospital ficava o edifício da Ordem do Terço.

Em 1793 a capela foi demolida por ordem de Francisco de Almada e Mendonça, uma espécie de governador civil da época. A ordem de abate foi dada nos seguintes termos: “… que pela consignação do subsidio se demolisse a capela de Nossa Senhora da Batalha e, pelo mesmo cofre, se construísse outra de novo…”.

O novo templo foi construído imediatamente a seguir, mas não no sítio onde havia estado o anterior. Aliás, a mudança de local obrigou à mudança de freguesia. Deixou de pertencer à área de jurisdição da freguesia de Santo Ildefonso para ficar sob a alçada administrativa da freguesia da Sé. Nesta deslocação, a capela ficava do lado da rua de Cima de Vila, mas em frente ao local onde se viria a erguer a estátua de D. Pedro V. E aqui se conservou até 1796, ano em que se começou a construir o edifício para o teatro de S. João. Logo nesse ano começou-se a pensar na demolição desta segunda capela. A argumentação era a de que tirava a vista à imponente fachada do edifício do teatro. E a demolição aconteceu, efetivamente, mas só em 1920. Mas não se demoliu apenas a capela. Também se arrasaram várias casas que ficavam perto do templo.

Diz-se no começo da crónica que nada existe na praça da Batalha que nos lembre a capela de Nossa Senhora da Batalha. E é verdade. Mas temos a possibilidade de saber como era a capela e em que local da praça ficava, através de fotografias antigas da praça da Batalha, como é o caso da imagem que utilizamos para ilustrar a presente crónica. A capela é visível (fachada mais clara) ao lado direito da imagem.

 

(texto de Germano Silva, jornalista e historiador)