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SABIA QUE… A PRAÇA DO MARQUÊS CHAMAVA-SE LARGO DA AGUARDENTE?

SABIA QUE… A PRAÇA DO MARQUÊS CHAMAVA-SE LARGO DA AGUARDENTE?

 

Revisitamos algumas edições de O TRIPEIRO dos últimos anos, a centenária revista da Associação Comercial do Porto que é guardiã da história e do património da cidade desde 1908. Neste caso, espreitamos a edição de janeiro de 2013.

 

Pode adquirir as edições mensais da revista O TRIPEIRO nos serviços do Palácio da Bolsa através dos contactos disponíveis na página de Facebook da Associação Comercial do Porto.

 

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O nome da rua

 

Praça do Marquês de Pombal

 

O elogio do carrasco

 

Quando se construiu o último troço de Santa Catarina, que então constituiu uma rua autónoma – a Rua Bela da Princesa –, a praça que é hoje do Marquês de Pombal assumiu a designação oficial de Largo da Aguardente. Até 1784 fora Alameda da Aguardente, em virtude dos renques de árvores que ladeavam, neste sítio, à época desabitado, a estrada real para Guimarães. Mas a questão essencial é outra: que razão levaria esta cidade, cenário de uma das mais odiosas e bárbaras injustiças do ministro, a honrar-lhe a memória numa das mais importantes praças do burgo?

 

Tal como existe hoje, a Praça do Marquês de Pombal decorre da revolução urbanística promovida, na segunda metade do século XVIII, por João de Almada, cujo trabalho foi prosseguido por seu filho, o corregedor Francisco de Almada. O “Plano de Melhoramentos” que, entre muitas outras obras de beneficiação, ditou o prolongamento da Rua de Santa Catarina “até ao sítio chamado da Aguardente”, ou seja, até à actual Praça do Marquês de Pombal, data de 1784, que é justamente o ano em que o Almada “novo” terá sido chamado a partilhar alguns dos poderes do Almada “velho”, falecido em 1786.

Quando se construiu este último troço de Santa Catarina, que então constituiu uma rua autónoma – a Rua Bela da Princesa –, a praça que é hoje do Marquês de Pombal assumiu a designação oficial de Largo de Aguardente. Até 1784 fora Alameda da Aguardente, em virtude dos renques de árvores que ladeavam, neste sítio, à época desabitado, a estrada real para Guimarães.

Em Março de 1882, uma petição dos moradores da zona requeria à Câmara que lhe alterasse o nome para Praça do Príncipe Real; e dois meses mais tarde a autarquia sacrificava, de facto, o velho topónimo vinícola, mas para o substituir por uma homenagem ao célebre ministro de D. José. A nova designação de Praça do Marquês de Pombal foi aprovada pela vereação da Câmara a 4 de Maio de 1882, ou seja, a quatro dias da data em que se cumpria o primeiro centenário da morte de Sebastião José de Carvalho e Melo.

Tal como no resto do país, também no Porto o centenário do marquês foi celebrado com pompa e circunstância: houve cortejos, carros alegóricos e deposição de flores aos pés de um monumento, improvisadamente erguido para o efeito na recém-baptizada Praça do Marquês de Pombal.

Poucos anos antes, em 1875, fundara-se neste largo uma capela dedicada a Santo António, entretanto desaparecida e a que os fiéis, num decerto involuntário desrespeito pela ascética figura do patrono, chamavam Santo António da Aguardente.

O principal monumento da praça foi contruído há pouco mais de meio século: é a Igreja da Imaculada Conceição, um dos raros exemplos significativos que o Porto conserva – outro é a Igreja das Antas – da arquitectura religiosa do Estado Novo. Mas o que o “Marquês” tem de melhor são mesmo as suas árvores, cuja sombra protege os reformados que por ali se divertem a jogar as cartas. Se chove, não há que saber: montam a mesa de jogo no bonito coreto do jardim.

E não convém esquecer o Asilo Profissional do Terço, instalado num edifício oitocentista; quer pela relevância social da casa quer pelo seu cinema contíguo, que infelizmente cobriram há alguns anos, despojando a cidade do seu último grande cinema ao ar livre. Antes das obras de remodelação, como certamente se lembram os cinéfilos da cidade, o Cinema do Terço tinha apenas uma pequena parte coberta, no lado oposto ao écran. Era a zona dos assentos confortáveis, a que se seguiam várias filas de cadeiras de madeira, semelhantes às que ainda encontramos em alguns cafés. E os lugares da frente, mais baratos, eram assegurados por compridos bancos de igreja.

Mas voltemos ao Marquês de Pombal, antes de mais para levantar esta pergunta, que parece legítima: que razão levou esta cidade, cenário de uma das mais odiosas e bárbaras injustiças do ministro, a honrar-lhe a memória numa das mais importantes praças do burgo?

Recordemos a história, que Arnaldo Gama narra exemplarmente no seu “Um Motim Há Cem Anos”. Indignados com a criação da Companhia Geral da Agricultura e Vinhas, os comerciantes do Porto promoveram, em Fevereiro de 1757, uma revolta popular, que redundou em alguns poucos feridos e na destruição do mobiliário da residência pessoal do provedor da Companhia. Desta trivial e inofensiva bulha popular fez Pombal um crime de lesa-majestade, e conseguiu a condenação de 487 réus, incluídas mulheres e crianças. Uns foram açoitados, outros atirados às galés, muitos sofreram o degredo. E 17 foram enforcados na Cordoaria. Ao horrendo espectáculo foram forçadas a assistir diversas crianças, que haviam sido previamente espancadas em punição pelo seu alegado envolvimento no motim.

É este homem que o Porto evoca na sua toponímia, ao mesmo tempo que recorda as suas vítimas no próprio local do crime, a Cordoaria, que se chama hoje Campo dos Mártires da Pátria (embora a pátria não pareça vir ao caso).

Traçar a biografia de Pombal, em cuja figura se resume todo o nosso século XVIII, é aqui tarefa impossível. Recordem-se apenas alguns factos. Sebastião José de Carvalho e Melo nasceu em Lisboa em 1699 e morreu na sua quinta de Pombal em 1782. Oriundo de uma família nobre mas pouco mais do que remediada, casou em 1723, contra a vontade dos parentes da noiva, com D. Teresa de Noronha e Bourbon Mendonça e Almada, da casa dos condes de Arcos, que o deixou viúvo em 1739. Em Viena de Áustria, onde desempenhava missão diplomática, voltou a casar, em 1745, desta vez com D. Leonor Ernestina Daun, filha de um ilustre militar, o tão nobre quanto arruinado conde de Daun.

Os historiadores tendem a considerar relativamente medíocre a actividade do futuro marquês de Pombal nestes seus primeiros anos de vida pública, como diplomata ao serviço de D. João V. Mas não é fácil estabelecer juízos definitivos, já que a historiografia pombalina é, como talvez a de nenhuma outra figura da nossa história, condicionada pelos sentimentos prévios dos estudiosos. Não lhe faltaram encómios em vida, como também lhe sobraram, nos seus últimos anos e logo após a sua morte, rancorosos ataques. Caído em desgraça com o desaparecimento de D. José, em 1777, Pombal veio a ser reabilitado pelos liberais, que – como depois os republicanos – nele viam, sobretudo, o implacável inimigo dos jesuítas. E o seu apregoado iluminismo, de resto desmentido por muitos dos seus actos, tem levado alguma historiografia contemporânea, a exaltar-lhe, sob a capa da neutralidade científica e das visões globais e sociológicas, os méritos de estadista esclarecido.

Tendo herdado de um seu tio, Paulo de Carvalho, uma razoável fortuna e terras em Oeiras – de que veio a ser conde em 1759 –, Pombal iniciou-se na política no reinado de D. João V, que, ao que parece, nunca o apreciou. Mas com a subida ao trono de D. José, o futuro marquês é chamado ao governo e depressa lança na sombra todo o restante gabinete.

 

O mais importante político setecentista

 

Adversário encarniçado dos jesuítas, cujo poder na América do Sul vinha já combatendo nos anos que antecederam o terramoto de Lisboa, foi com a tragédia de 1755 que Pombal firmou definitivamente o seu poder. Vivendo numa barraca entre ruínas, dormindo e comendo pouco, o ministro revelou, na reconstrução da capital, todas essas qualidades que o converteram no nosso mais importante político setecentista. Em breve mostraria também os defeitos que o transformaram num exemplo de despotismo e barbárie sem paralelo na história portuguesa. Em 1757 teve lugar o já citado processo do motim da Companhia. No final de 1758, um frustrado atentado contra D. José –quando este vinha, ao que parece, de um encontro com a amante, nora do marquês de Távora –deu-lhe o pretexto para extravasar todo o ódio que votava aos Távoras, seus adversários declarados, e ao duque de Aveiro, casado com uma irmã do marquês de Távora. Em Janeiro de 1759, Pombal prendia o referido duque, o marquês de Alorna, os condes de Atouguia, Óbidos e Ribeira, e toda a família dos marqueses de Távora. Invocando alegadas profecias dos jesuítas relativas à morte do rei, cercou-lhes todos os colégios de que dispunham no país e sequestrou-lhes os bens.

Torturando as próprias testemunhas chamadas a depor, conseguindo pelo suplício que alguns dos réus acusassem os restantes, Pombal, ignorando o facto de os depoimentos se contradizerem uns aos outros, condenou à morte todos os fidalgos acusados de envolvimento no atentado. A marquesa de Távora, D. Leonor, foi degolada sem sequer ter sido ouvida. O seu segundo filho, que suportara as torturas sem falar, foi estendido numa aspa, quebraram-lhe os ossos à martelada e garrotaram-no lentamente. Ao velho marquês fizeram o mesmo, mas não sem antes lhe mostrarem os cadáveres da mulher e dos filhos. E ao duque de Aveiro foram-lhe prolongando as torturas, para que este pudesse ver o seu serviçal António Ferreira, alegado autor dos disparos contra D. José, ardendo com o corpo untado de breu e um saco de enxofre ao pescoço.

Podiam avançar-se outros exemplos do sadismo (que outra coisa lhe chamar?) do marquês de Pombal, título que obteve em 1769. Conseguiu que a Inquisição garrotasse e queimasse o cadáver do reputado padre Malagrida, que insinuara que o terramoto de Lisboa viera castigar os pecados do ministro, decepou e esquartejou um genovês acusado de o tentar matar – parece que o próprio Pombal o cria inocente –, incendiou as choupanas dos pescadores da Trafaria, matando vários deles, porque supostamente acolhiam refugiados ao recrutamento…

Caído em desgraça após a morte de D. José, o marquês foi condenado ao desterro por D. Maria I, em 1781, retirando-se, já moribundo – há quem avance a tese de que contraíra a lepra –, para a sua quinta de Pombal, onde veio a morrer um ano mais tarde.

Alterar topónimos bem enraizados é, além de contestável, sempre ineficaz. Mas como os portuenses chamam simplesmente “o Marquês” à praça que evoca o ministro de D. José, propõe-se um pequeno estratagema: arranja-se outro marquês, que ainda que o não seja por antonomásia, como o de Pombal, possa ao menos ser mais digno de figurar na toponímia de uma cidade que, como o Porto, se orgulha de, ao longo dos séculos, ter sempre combatido em prol das liberdades.

 

(texto de Luís Miguel Queirós)