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SABIA QUE… A PRAÇA DA REPÚBLICA ERA O ANTIGO CAMPO DE SANTO OVÍDIO?

SABIA QUE… A PRAÇA DA REPÚBLICA ERA O ANTIGO CAMPO DE SANTO OVÍDIO?

 

Revisitamos algumas edições de O TRIPEIRO dos últimos anos, a centenária revista da Associação Comercial do Porto que é guardiã da história e do património da cidade desde 1908. Neste caso, espreitamos a edição de janeiro de 2013.

 

Pode adquirir as edições mensais da revista O TRIPEIRO nos serviços do Palácio da Bolsa através dos contactos disponíveis na página de Facebook da Associação Comercial do Porto.

 

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Espaço Urbano

 

Os primórdios do campo de Santo Ovídio, actual Praça da República

Quando o Porto não tinha praças

 

O campo de Santo Ovídio, actual Praça da República, era até finais do século XVIII um pequeno largo irregular onde existia apenas um poço e algumas árvores que forneciam descanso a quem passava na antiga estrada para Braga. Ora, uma das preocupações da então criada Junta das Obras Públicas era precisamente a inexistência de praças dentro e fora do núcleo medieval. No quadro de desenvolvimento da zona setentrional da cidade, seria escolhido o campo de Santo Ovídio para a criação de um espaço que pudesse constituir uma nova praça com cerca de 25 mil metros quadrados de superfície.

 

A cidade do Porto, devido ao crescimento demográfico verificado ao longo do século XVIII, contava em 1781 com cerca de 60 mil habitantes, 25 mil dos quais no interior do recinto amuralhado, tornando-se cada vez mais urgente o planeamento e execução das directrizes previstas pela Junta das Obras Públicas do Porto, criada em 1758 e presidida por João de Almada e Melo.

A sua acção consistia não só na intervenção no núcleo medieval, como também na definição e controlo da expansão da cidade extra-muros, bem como na correcta transição e contacto entre o velho e o novo tecido urbano. Apesar de as suas directrizes terem sido apenas compiladas em 1784 no chamado “Plano de Melhoramentos”, era já visível a sua intervenção em diversos pontos da cidade, nomeadamente na abertura da Rua do Almada, projectada em 1761 por Francisco Xavier do Rego e incluída na conhecida “Planta do Bairro dos Laranjais”. A definição daquele que seria o primeiro eixo de expansão radial da cidade, a Rua do Almada, marca definitivamente a abertura de um período de transformação urbana que se prolongaria nos 50 anos seguintes, o chamado período dos Almadas.

Neste período foram desenvolvidos vários projectos que propunham a criação de novos arruamentos no núcleo medieval, na tradição das já conhecidas ruas Novas, como também arruamentos que organizavam a expansão radial da cidade, apoiados num conjunto de novos eixos urbanos que regularizavam percursos e previam novos espaços organizativos. A execução da Rua do Almada, concluída desde 1764, obedecendo aos novos princípios urbanos definidos pela Junta das Obras Públicas, de perfil largo, rectilíneo e longitudinal, sobre o qual foram desenvolvidos estudos sectoriais de ordenamento de conjuntos de fachadas, estabelecem-na desde logo como exemplo para futuras intervenções na cidade. Incluída na “Planta do Bairro dos Laranjais”, e executada após a abertura da praça Nova, prolongava a já existente Rua das Hortas até ao campo de Santo Ovídio, num plano que previa igualmente a execução de ruas transversais que procuravam integrar e desenvolver espaços pré-existentes.

De notar que o quadro e estratégia de intervenção urbana no Porto foi claramente diferente, neste aspecto, do tipo de operação realizada em Lisboa após o terramoto de 1755, ou em Vila Real de Santo António, onde uma malha ortogonal estabelece o quadro urbanístico da intervenção. No Porto procurou-se uma correcta transição entre o novo e o velho tecido urbano, integrando na nova malha as pré-existências da cidade, estabelecendo-se simultaneamente os grandes eixos de expansão radial. Neste sentido, a ligação que a Rua do Almada estabelecia entre o largo de Santo Elói e o largo de Santo Ovídio foi incluída numa visão ainda mais global da cidade uma vez que, apenas dois anos após a aprovação da “Planta do Bairro dos Laranjais”, foi aprovada uma ligação transversal entre o largo de Santo Elói e a Rua das Flores, dando assim continuidade a um percurso que, através do Largo de S. Domingos e da Rua Nova de S. João, podia estender-se até à Praça da Ribeira.

 

Pequeno largo na estrada para Braga

 

Na segunda metade do século XVIII, uma das preocupações da recém-criada Junta das Obras Públicas era a inexistência de praças dentro e fora do núcleo medieval. No recinto amuralhado, e à excepção da Praça da Ribeira, a cidade apenas possuía pequenos largos ou alargamentos que resultavam normalmente em espaços irregulares, consequência da confluência de ruas tortuosas. Neste sentido, a Junta da Obras Públicas inicia um plano de regularização de alguns largos existentes, nomeadamente de Santo Éloi, de S. Domingos e do Olival, criando simultaneamente as condições necessárias ao desenvolvimento de outros espaços públicos com o mesmo carácter. Assim, após a abertura da Praça Nova, surgiu a necessidade de desenvolvimento da zona setentrional da cidade, sendo escolhido o Largo de Santo Ovídio para a criação de um novo espaço que pudesse constituir uma nova praça.

O campo de Santo Ovídio era, até finais do século XVIII, um pequeno largo irregular onde existia apenas um poço e algumas árvores que forneciam descanso a quem passava na antiga estrada para Braga, servindo simultaneamente de entrada à quinta da Boavista, pelo seu lado poente, e à quinta de Santo António do Bonjardim, pelo seu lado nascente. Cumprindo o plano do “Bairro dos Laranjais”, e já aberto em 1763, a Junta das Obras Públicas inicia em de 1782 a sua ampliação, procedendo também à execução do tramo inicial da Rua da Boavista para futura ligação ao bairro de Cedofeita, prevendo-se igualmente um novo arruamento, futura Rua de Gonçalo Cristovão, que no entanto só será executado no século XIX. Em 1784, e não satisfeita ainda com as dimensões da praça, a Câmara decide fazer uma nova ampliação, finalizando-se os trabalhos em 1785. Transformou-se assim o espaço num terreno rectangular e praticamente plano, com cerca de 25 mil metros quadrados de superfície, próximo das medidas que hoje observamos, passando a denominar-se Campo ou Terreiro de Santo Ovídio.

Apesar do desenvolvimento centrípeto da cidade já se verificar desde seiscentos, impulsionado principalmente pela construção de edifícios de carácter religioso junto às portas da muralha, será no século XVIII, através da acção da Junta das Obras Públicas, que esse mesmo desenvolvimento será estruturado por planos que demonstram claramente a aplicação de conceitos iluministas de regularidade urbana. Promovendo não só a definição de novos eixos, mas também a criação de diversos e importantes equipamentos públicos, que se constituíssem referências dos novos espaços urbanos criados, a Junta das Obras Públicas inicia a construção de um conjunto de edifícios estruturadores da expansão urbana em curso, tendo sido escolhido neste sentido, em 1790, o campo de Santo Ovídio para localização do futuro quartel militar.

 

(texto do Arq. Ricardo Silva)