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SABIA QUE… O CEMITÉRIO ISRAELITA FICAVA NA ENCOSTA DAS VIRTUDES?

SABIA QUE… O CEMITÉRIO ISRAELITA FICAVA NA ENCOSTA DAS VIRTUDES?

 

Revisitamos algumas edições de O TRIPEIRO dos últimos anos, a centenária revista da Associação Comercial do Porto que é guardiã da história e do património da cidade desde 1908. Neste caso, espreitamos a edição de setembro de 2013.

 

Pode adquirir as edições mensais da revista O TRIPEIRO nos serviços do Palácio da Bolsa através dos contactos disponíveis na página de Facebook da Associação Comercial do Porto.

 

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O Nome da Rua

 

Rua do Monte dos Judeus

 

Um cemitério judaico

 

A explicação do topónimo Monte dos Judeus parece explicar-se a si próprio: “monte” por se situar numa elevação – a encosta das Virtudes –, e “dos judeus”, por estes, em alguma época, ali se terem concentrado. No entanto, do ponto de vista da fidelidade histórica, onde se diz “judeus” deveria dizer-se cemitério dos judeus, já que a judiaria portuense ficava alhures, junto ao antigo Olival, na zona da Cordoaria. Nas Virtudes localizava-se, sim, o cemitério israelita, emprazado à população judaica em 1380, pouco antes da criação da dita judiaria – ou comuna, como também se dizia – do Olival.

 

No miolo da encosta que trepa do rio para a Calçada das Virtudes subsiste ainda hoje o topónimo Monte dos Judeus, que designa uma rua, umas escadas e um pátio. A Rua do Monte dos Judeus liga as ruas do Cidral de Cima e da Bandeirinha; e as escadas descem da rua homónima até à Rua de Miragaia. O pátio, esse, nasce junto às escadas e não tem saída, razão por que, até há pouco, se chamou oficialmente Pátio das Escadas do Monte dos Judeus. Pelos meados deste século, existia ainda um Largo do Monte dos Judeus, localizado entre a rua do mesmo nome e a do Cidral de Cima – um roteiro do Porto do final de Oitocentos refere que este largo se chamara do Monte Escorregadio, designação que já então perdera e que tivera origem numa certa “Pedra Escorregadia” que se erguia junto ao Postigo das Virtudes.

A explicação do topónimo Monte dos Judeus parece explicar-se a si próprio: “monte” por se situar numa elevação – a encosta das Virtudes –, e “dos judeus”, por estes, em alguma época, ali se terem concentrado. No entanto, do ponto de vista da fidelidade histórica, onde se diz “judeus” deveria dizer-se cemitério dos judeus, já que a judiaria portuense ficava alhures, junto ao antigo Olival, na zona da Cordoaria. Nas Virtudes localizava-se, sim, o cemitério israelita, emprazado à população judaica em 1380, pouco antes da criação da dita judiaria – ou comuna, como também se dizia – do Olival.

Se a presença dos judeus em Portugal ao longo de toda a Idade Média está razoavelmente bem documentada, já é menos fácil fixar, ainda que aproximadamente, a data em que aqui chegaram. Uma tradição mais lendária do que histórica dá-os a aportar na Península no século VI a.C., quando o célebre Nabucodonosor reinava sobre os Caldeus. Mas os historiadores admitem apenas como seguro que aqui tenham estado antes dos romanos.

Consensual é também a ideia de que os judeus viveram em relativa tranquilidade no Portugal medieval, mesmo se, quase sempre, tiveram de pagar em bom metal sonante a paz que lhes concediam. Em todo o caso, a época da primeira dinastia, sobretudo até D. Dinis, há-de ter sido evocada como tempo paradisíaco pelas gerações judaicas que tiveram a má sina de assistir à ascensão aos tronos ibéricos de Isabel a Católica e de D. João II. D. Dinis não hesitou mesmo em afrontar a lei vigente que interditava aos judeus o exercício de cargos públicos: nomeou administrador-geral da Fazenda um certo D. Judas, rabino-mor da população judaica portuguesa. E quando este morreu, fê-lo substituir por seu filho, Guedelha Aben Judah.

Contudo, se os judeus eram diretamente protegidos pela Coroa, estavam também sujeitos ao arbítrio real. Já D. Afonso II lhes chamava “judei mei”. E os seus sucessores mantiveram, para o bem e para o mal, este mesmo ilimitado poder sobre a comunidade judaica.

Sob D. Dinis, os numerosos conflitos entre os seguidores de Cristo e os que cumpriam a lei mosaica iam sendo dirimidos com alguma justiça: as causas eram julgadas por cristãos quando fosse esse o credo do réu, mas sucedia o inverso se o acusado fosse judeu. Esta aparente imparcialidade não abrangia, contudo, o capítulo económico; eram sem conta os impostos que os judeus tinham de pagar: taxas para comprar, taxas para vender, taxas para ouvir a pregação do seu rabi (o genesim)… e uma taxa sobre o facto de existirem quando tivessem mais de sete anos, a judenga, ou capitação de 30 dinheiros, “em lembrança e castigo” de terem vendido por tal quantia o alegado filho (para os judeus, não o era) de Deus.

Mas o que mais lhes custava era a episódica dízima que a Igreja lhes cobrava; contestavam-na com um argumento que, se não era atendido, nem por isso deixava de ser incontornável: é que, lembravam, não eram cristãos.

Todavia, a sua vocação urbana, a sua competência nas atividades monetárias, a sua perícia em diversos ofícios — havia-os mercadores, alfaiates, ourives, sapateiros, mas também médicos, e, ao que parece, os mais considerados do tempo —, tornavam os judeus indispensáveis à atividade do burgo medieval. E se desde cedo existiram judiarias, estas eram, de início, ostensivamente abertas à vizinhança cristã. Foi com D. Pedro I que se começaram a colocar portas nas comunas; todavia, a relação entre cristãos e judeus manteve a sua ambiguidade: os primeiros contestavam particularmente a prática da usura a que se dedicavam os segundos, mas nem por isso deixavam de a alimentar.

Da história dos judeus no Porto, sabe-se que detinham, já no século XIII, uma casa de oração na rua que é hoje de Sant’Ana. Mas a primeira judiaria data de 1386 e foi-lhes concedida por D. João I, com o fito de evitar os crescentes conflitos entre cristãos e judeus. Poucos anos antes, em 1380, o Cabido emprazara-lhes o já referido terreno nos socalcos das Virtudes, para que ali enterrassem os seus mortos.

Os limites da judiaria do Olival, verdadeiro bairro judeu, partiam da Rua de S. Bento da Vitória, seguiam a Rua das Taipas e de Belomonte, trepavam pela Travessa do Ferraz até aos Caldeireiros (a antiga Ferraria de Cima) e regressavam ao ponto de partida. Duas portas de ferro maciço – uma no topo de S. Bento e outra junto a Belomonte – preveniam os indesejáveis contactos. E as próprias casas, sem entradas pelas “ruas cristãs” garantiam o cordão sanitário, reforçado, quando fosse caso disso, por muros altos.

Em Março de 1390, D. João I concedeu à judiaria o privilégio de não alojar estranhos, salvo o próprio monarca, se assim o desejasse. Nesta judiaria se ergueu a primeira genuína sinagoga do Porto, que se supõe estar hoje soterrada sob a Igreja de S. Bento da Vitória – o convento beneditino construiu-se nos séculos XVI e XVII –, embora alguns coloquem reservas a esta generalizada convicção dos historiadores.

Ao longo dos séculos, os judeus foram sofrendo, em Portugal, diversos vexames: D. Afonso IV fê-los usar um sinal amarelo no chapéu e compeliu-os a cortar o cabelo com tesoura; D. Pedro I ordenou-lhes que trouxessem uma estrela ao peito (o que é que isto nos lembra?) e D. João I pormenorizou o decreto, insistindo que esta fosse vermelha e tivesse seis pontas. Mas estas leis só vagamente iam sendo cumpridas. As verdadeiras perseguições ainda aí vinham.

Na fatídica data de 31 de Março de 1492, Fernando e Isabel, os Reis Católicos, obrigam os judeus a sair de Espanha ou a converter-se, sob pena de morte e confisco de bens. Com olho nos lucros, D. João II vende-lhes a entrada em Portugal. Daqui seguiriam para Tânger ou Arzila, terríveis destinos nesta época – e os que não pagassem no prazo estipulado, eram feitos escravos. Que não se tratava de pessoal fanatismo religioso prova-o o facto de terem sido escolhidos entre os judeus os agentes fiscais de D. João II.

A sua medida mais repulsiva foi, no entanto, a de ter arrancado aos judeus os filhos menores, para que, batizados à força, fossem colonizar como cristãos as ilhas então ditas dos Lagartos, ou seja, o arquipélago de S. Tomé e Príncipe. Ao mesmo tempo, esse glorificado “Príncipe Perfeito” usava judeus como seus agentes fiscais, reconhecendo que ninguém lhes levava a palma em coisas de dinheiro. A quem quiser ler algumas páginas do mais completo horror, a este propósito, recomenda-se “O Encoberto”, de Sampaio Bruno.

Com D. Manuel, pareciam anunciar-se melhores dias para a comunidade judaica. O monarca começa por libertar aqueles que D. João II escravizara. Mas logo em 1496 repete em Portugal o decreto de expulsão castelhano, ao que parece pressionado por Isabel e Fernando, que impunham tal condição para permitir o matrimónio de sua filha Isabel com o soberano vizinho. Todavia, se lhes ordenou a partida, tudo fez para que não partissem, designadamente negando-lhes os necessários navios – é que os judeus faziam falta à economia nacional. Preferiu transformá-los em cristãos, a bem ou a mal. E assim se abriu a fase dos cristãos-novos, que reservaria, também ela, algumas das mais negras páginas da nossa história, sobretudo as escritas pela Inquisição. Nunca é tarde para repor a justiça. E uma forma de o fazer, aqui no Porto, era atribuir a uma nossa rua o nome desse extraordinário livre-pensador judeu que foi Uriel da Costa, cuja biografia Agustina Bessa-Luís romanceou no seu “O Bicho da Terra”.

 

(texto de Luís Miguel Queirós)