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SABIA QUE… O TERRAMOTO DE LISBOA DE 1755 TAMBÉM INFLUENCIOU O URBANISMO NA CIDADE DO PORTO?

SABIA QUE… O TERRAMOTO DE LISBOA DE 1755 TAMBÉM INFLUENCIOU O URBANISMO NA CIDADE DO PORTO?

Nestes tempos de pandemia, aproveitamos para revisitar algumas edições de O TRIPEIRO dos últimos anos, a centenária revista da Associação Comercial do Porto que é guardiã da história e do património da cidade desde 1908. Neste caso, espreitamos um texto do arquiteto Ricardo Silva publicado na edição de janeiro de 2015.

 

Pode adquirir as edições mensais da revista O TRIPEIRO nos serviços do Palácio da Bolsa através dos contactos disponíveis na página de Facebook da Associação Comercial do Porto.

 

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BOLHÃO, O MAIS EMBLEMÁTICO MERCADO DA CIDADE

 

Foi no início do século passado, mais concretamente em 1904, que se abriu caminho à construção do atual Mercado do Bolhão, quando foi decidido o prolongamento da Rua de Sá da Bandeira entre as ruas Formosa e de Fernandes Tomás. Esta obra foi essencial para o mercado que surgiria na década seguinte. Todavia, convém recuar alguns anos para compreendermos melhor como o terramoto de Lisboa de 1755, por estranho que possa parecer, foi decisivo neste processo ao tornar a “cidade” no tema central no debate político. Um contexto que, poucos anos volvidos, proporcionou a criação no Porto, em 1763, da Junta das Obras Públicas dirigida por João de Almada e Melo. Falemos então das raízes urbanísticas do mais emblemático mercado da cidade do Porto…

 

Arq. Ricardo Silva

 

A necessidade de conservação dos alimentos foi, ao longo do tempo, um problema difícil de ultrapassar, resolvido totalmente apenas no século XX com as modernas técnicas de refrigeração. O abastecimento diário das populações, nomeadamente urbanas, revestia-se assim da maior importância, desempenhando as feiras e os mercados um papel fundamental em todo este processo. Com o gradual crescimento das cidades, coloca-se entretanto o problema do tráfego crescente de pessoas, bens e animais, tornando-se urgente o estabelecimento de locais próprios para a sua realização, procurando-se salvaguardar as diversas questões associadas à higiene e saúde pública.

A apropriação do espaço público para a realização das mais variadas feiras e mercados era uma tendência que há muito se verificava, reintroduzindo-se, em meados do século XVIII, o tema da cidade, da sua organização e funcionamento. Em Portugal, um acontecimento tornar-se-ia determinante nesta matéria: o terramoto de Lisboa de 1755. O tema da cidade torna-se então central no debate político, sendo neste contexto criada no Porto, em 1763, a Junta das Obras Públicas, sob direção de João de Almada e Melo, tendo como principal objetivo procurar resolver os problemas urbanos associados à cidade existente e ao seu crescimento. Neste sentido é estabelecido um conjunto de eixos de expansão radial, no qual se incluía a Rua de Santa Catarina, com prolongamento pela Rua da Bela da Princesa até ao Largo da Aguardente, atual Praça do Marquês de Pombal. Estes eixos deveriam, no entanto, ser ligados entre si por um conjunto de ruas transversais, importando destacar neste processo a Rua do Bolhão, integrada atualmente na Rua de Fernandes Tomás, e a Rua Formosa, estabelecendo posteriormente o limite norte e sul do futuro mercado. Com os novos arruamentos – projetados segundo princípios de racionalidade – procurava-se uma regularidade urbana até aí inexistente, definindo-se um modelo de perfil largo, retilíneo e de inclinação suave e constante. Em 1785, e após a cedência por Isabel Matilde e Meneses dos terrenos necessários à abertura da Rua Formosa, são iniciadas as respetivas obras segundo projeto de Champalimaud de Nussane, concluindo-se os trabalhos já depois da morte de João de Almada e Melo.

 

Um novo conceito de cidade

 

No final do século XVIII observa-se no Porto a implementação de um novo conceito de cidade, estabelecendo-se o edificado como elemento de configuração urbana, fundamental na definição dos novos arruamentos, na procura de uma clara organização programática e de uma crescente especialização dos espaços, em contraponto à apropriação multifuncional de praças, ruas e largos verificada no período medieval. Ao nível da arquitetura, uma obra publicada em 1809 torna-se entretanto fundamental no desenvolvimento da tipologia dos mercados: “Précis des leçons d’Architecture…” de Jean-Nicolas-Louis Durand, com claras influências não só em França como também no resto da Europa. No Porto, assiste-se neste período a um aumento da atividade comercial que conduziu ao desenvolvimento de políticas liberais, definindo-se um conjunto de regras que estabelecem novas regulamentações, nomeadamente no que respeita à venda ambulante, o que leva a uma gradual proibição desta atividade. Surgem então um conjunto de propostas para o estabelecimento de novos espaços por forma a organizar o abastecimento diário da cidade, sendo neste contexto as praças objeto de especial atenção. É nesta lógica que se insere, num primeiro momento, a remodelação da Praça da Ribeira e do respetivo mercado, bem como a constituição de um outro junto aos Loios para transferência do que então se realizava no Largo de S. Domingos.

A praça era cada vez mais tida como um espaço público de eleição, adquirindo um caráter representativo e simbólico incompatível com a atividade desenvolvida pelas feiras e mercados, principalmente pela sujidade e confusão que diariamente provocavam. Contudo, no início do século XIX eram ainda inúmeros os locais onde estas feiras se realizavam regularmente, com maior ou menor especialização dos produtos vendidos, como na Praça Nova, no Largo de S. Bento, na Praça dos Ferradores ou no Largo de Santo Ildefonso e Batalha. Após um período de indefinição gerado pela luta na sucessão ao trono, que terminaria em 1834 com a vitória das tropas liberais, retoma-se nesse mesmo ano a intenção de implementar regras relativamente à venda de produtos em espaços públicos. Num primeiro momento, surge a possibilidade de transformação dos antigos edifícios das ordens religiosas em mercados, nomeadamente de S. Francisco e de S. Domingos, sendo todavia esta ideia rapidamente abandonada, concentrando-se, em alternativa, na zona da Cordoaria, a maioria das feiras que proliferavam no centro da cidade. Esta zona, incluindo todo o antigo campo do Olival, era tida então como o local ideal para a criação de um conjunto de mercados, inaugurando-se em 1839 o Mercado do Anjo, construído na área anteriormente ocupada pelo edifício do Recolhimento do Anjo e respetiva cerca. A sua localização torna-se determinante em todo este processo, procurando-se com a sua construção não só o estabelecimento de um novo equipamento público como também o desenvolvimento de uma área que entretanto se tornara fundamental na expansão urbana.

É neste contexto que surge também a intenção de criar uma praça entre a Rua Formosa e a Rua do Bolhão, segundo iniciativa de António Oliveira Basto, que, em 1837, na qualidade de proprietário dos terrenos situados a poente da futura praça, manifesta esta ideia à Câmara Municipal, iniciando-se um processo que analisaremos no próximo número da revista O TRIPEIRO.