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SABIA QUE… O CÉLEBRE VIOLONCELISTA ITALIANO JOAQUIM CASELLA RADICOU-SE NO PORTO EM 1872?

SABIA QUE… O CÉLEBRE VIOLONCELISTA ITALIANO JOAQUIM CASELLA RADICOU-SE NO PORTO EM 1872?

 

Nestes tempos de pandemia, aproveitamos para revisitar algumas edições de O TRIPEIRO dos últimos anos, a centenária revista da Associação Comercial do Porto que é guardiã da história e do património da cidade desde 1908. Neste caso, espreitamos um texto da professora universitária e musicóloga Ana Maria Liberal publicado na edição de abril de 2013.

 

Pode adquirir as edições mensais da revista O TRIPEIRO nos serviços do Palácio da Bolsa através dos contactos disponíveis na página de Facebook da Associação Comercial do Porto.

 

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ESTÓRIAS DO PORTO MUSICAL

 

JOAQUIM CASELLA (1838-1905) – O VIOLONCELISTA QUE VEIO DE TURIM

 

O violoncelista Gioacchino Casella nasceu há 175 anos na cidade italiana de Turim. Veio para o Porto em 1872, contratado para a orquestra do Teatro de S. João, e aqui se radicou até 1905, ano em que faleceu. O seu papel destacado na vida musical do Porto no último quartel do séc. XIX e os 175 anos do seu nascimento são motivos suficientes para o recordar na Estória do Porto Musical de Abril.

 

Ana Maria Liberal, professora universitária e musicóloga

 

 

“Há anos, um corista do Teatro de S. João que se pintava muito meteu-lhe na cabeça que se pintasse. Casella aquiesceu, mas arrependeu-se logo em face do ridículo a que se sujeitara. Ciríaco de Cardoso, encontrando-o assim pintado e “renovado”, cumprimentou-o e perguntou-lhe, rindo: – Oh Casella, como está o seu pai? E o mais breve que lhe foi possível viu-se livre das pinturas para nunca mais as usar.” Esta história verídica, contada no n.º 66, de 20 de Abril de 1910, desta revista, tem como protagonistas duas ilustres figuras do meio musical portuense: Ciríaco de Cardoso e Gioacchino Casella.

O violoncelista Gioacchino Casella nasceu há 175 anos na cidade italiana de Turim. Veio para o Porto em 1872, contratado para a orquestra do Teatro de S. João, e aqui se radicou até 1905, ano em que faleceu. O seu papel destacado na vida musical do Porto no último quartel do séc. XIX e os 175 anos do seu nascimento são motivos suficientes para o recordar na Estória do Porto Musical de Abril.

Joaquim Casella (foi esta a versão portuguesa que adoptou para o seu nome artístico) pertencia a uma ilustre dinastia de músicos italianos: era filho do violoncelista Pietro Casella que, em 1832, ocupou o lugar de 1.º violoncelo da orquestra do Teatro de S. Carlos, de Lisboa; irmão dos violoncelistas Cesare e Carlo Casella; e tio do pianista e compositor Alfredo Casella, filho de Carlo. O seu irmão Cesare foi um dos protagonistas da cerimónia de inauguração do Palácio de Cristal, em 1865, e dos célebres “Concertos Populares” que se realizaram naquele recinto nos seis meses posteriores, ao lado do organista e compositor francês Charles-Marie Widor, dos pianistas João Guilherme Daddi, Artur Napoleão, e dos violinistas Francisco de Sá Noronha e Nicolau Medina Ribas.

Pouco tempo depois de chegar ao Porto, Joaquim Casella integra um grupo de músicos que se reuniam semanalmente em casa do capitalista e violoncelista amador João António Miranda Guimarães para “fazerem a sua quartetada clássica”. Os cinco músicos viriam a formar, em 1874, a Sociedade de Quartetos, um agrupamento responsável pela propagação e divulgação na cidade do Porto das grandes obras de música de câmara (a actividade da Sociedade de Quartetos foi tema da Estória do Porto Musical d’ O TRIPEIRO de Fevereiro de 2010). Melómano e músico amador, Joaquim de Vasconcelos acompanhou os dois primeiros anos de actividade do grupo de câmara, publicando no jornal “A Actualidade” as suas apreciações críticas sobre as obras e a prestação dos cinco músicos. No primeiro concerto, realizado a 10 de Junho, Vasconcelos elogia a sonoridade do músico italiano: “A aliança do violino do snr. Marques Pinto e do violoncelo do snr. Joaquim Casella é completa, na quantidade e qualidade de som; o Trio [em dó menor, com piano, de Mendelssohn] foi de todos os trechos concertantes o que achamos melhor ensaiado.” Mas, quatro concertos depois, critica a postura do violoncelista: “O snr. Joaquim Casella não renunciou ainda de todo aos portamentos, mas é contudo digno no seu lugar; o mesmo dizemos do snr. Miguel Ângelo. Somente achamos inconveniente a conversa do snr. Casella no meio dos trechos (!)”.

 

Avesso a tocar nos cafés

 

Uma das primeiras apresentações públicas de Joaquim Casella no Porto, como solista, teve lugar a 30 de Junho de 1874, no Palácio de Cristal. O músico italiano era anunciado com grande destaque no “Diário da Tarde” desse dia como “cavaleiro da real e distinta Ordem de Carlos III e 1.º violoncelo do nosso real teatro de S. João”. Acompanhavam tão ilustre personalidade, os pianistas Miguel Ângelo e Artur Ferreira, os violinistas Nicolau Ribas e Augusto Marques Pinto, o violoncelista amador Alfredo Allen, Visconde de Vilar de Allen, e os actores Carlota Veloso e Emílio Salazar, da companhia dramática do Teatro da Trindade. O espectáculo, agendado para as 20h45, constou de três partes, duas musicais e uma, a do meio, teatral. Carlota Veloso e Emílio Salazar interpretaram a comédia em 1 acto As pragas do Capitão. Casella tocou a Fantasia característica da autoria do seu irmão Cesare, o pensiero romântico In Riva al Março de Ângelo Mariani e a serenata de Rossini Mira la Bianca Luna, num arranjo para violino e violoncelo de Camilo Sivori e Hippolyte Seligmann; Miguel Ângelo interpretou a peça para piano Murmures Eoliens de Gottlschalk; Nicolau Ribas e Marques Pinto executaram o arranjo para dois violinos de Ferrarini sobre um motivo da ópera La Favorita; Alfredo Allen executou a peça Bianca, de Cesare Casella; Nicolau Ribas interpretou a fantasia Souvenir de Donizetti, de Leonard; e Artur Ferreira tocou a peça Bereille des Fées de Prudent. Os bilhetes custavam 500 réis e estavam à venda no local do concerto. A apreciação do “Diário da Tarde”, de 1 de Julho, dá conta de um espectáculo muito concorrido, com todos os artistas – músicos e actores – a serem premiados “com espontâneos e prolongados aplausos e repetidas chamadas ao proscénio” pela “execução brilhante” de todo o programa.

Nos quatro anos seguintes, Joaquim Casella desenvolve uma brilhante e intensa actividade musical no Porto. Para além dos concertos públicos a solo e das temporadas regulares com a Sociedade de Quartetos, o violoncelista natural de Turim dedica-se ao ensino com bastante êxito. Mas o encerramento do Teatro de S. João obriga-o a ir para Madrid para a orquestra do Teatro Real. O “Comércio do Porto” de 24 de Setembro de 1879 publica uma carta onde Casella se despede de “todos quantos nesta sobremodo hospitaleira terra de Portugal me têm favorecido sempre, e o mais generosamente possível, com a sua amizade e valimento”. Dedica um agradecimento especial em forma de “abraço saudoso” aos colegas Carlo Dubini, Nicolau e Hipólito Ribas, Miguel Ângelo, Marques Pinto, Giovani Franchini, Costa Moura e António Soller. E consagra “o mais profundo testemunho da [sua] gratidão e estima” aos discípulos Visconde de Vilar de Allen, Visconde da Ermida, Cunha Porto, Kopke de Carvalho, Rocha Leão, Ricardo Guimarães, Guichard, António Martins, Vasco de Serpa e António Ferreirinha, sem esquecer Arnaldo Guimarães e João Miranda, já falecidos.

A estada em terras espanholas é curta. Casella regressa ao Porto em 1880, retomando as suas actividades como 1.º violoncelista da orquestra do teatro lírico e na Sociedade de Quartetos. Dissolvido grupo de câmara em 1882, Joaquim Casella integra a seguir a Sociedade de Música de Câmara, em finais de 1883, e, entre 1891 e 1898, o Quarteto Moreira de Sá. O seu primeiro concerto com este agrupamento, na sala do Orpheon Portuense, passará à história da música portuguesa pela 1.ª audição no país dos Quartetos em sol menor de Mozart, em lá menor op. 41 de Schumann e op. 27 de Grieg.

Quando regressa ao Porto, em 1880, Casella instala-se no Hotel Continental. Diariamente, várias horas por dia, estudava afincadamente no seu quarto as obras que tinha que tocar na orquestra nos concertos de música de câmara e/ou como solista. Um dia, ao terminar a interpretação de uma das obras que estava a estudar, ficou tão satisfeito com a sua prestação que se aplaudiu a si mesmo, exclamando: “Brrraaaaaava, maestro, brrraaaaaava!”

No final da sua vida, o músico italiano debateu-se com problemas financeiros. Numa tentativa de os debelar, os seus amigos arranjaram-lhe contratos em vários cafés. Recusou, com o argumento de que só tocava em locais onde o público estivesse com a cabeça descoberta e em silêncio. Até que, num café em Espinho, ouviu Pablo Casals e condescendeu. Aceitou um contrato para fazer a época balnear num café em Matosinhos. Mas o governo decretou a proibição do jogo e o contrato ficou sem efeito. Novo contrato, algum tempo depois, com o Café Suíço. Mas o barulho que o público fazia na sala impediu-o de tocar mais do que duas noites. Casella era um músico que não gostava de tocar em cafés.