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SABIA QUE… “O TRIPEIRO” ANTECIPOU EM 2010 A TRANSFORMAÇÃO COSMOPOLITA DA RUA DA PICARIA?

SABIA QUE… “O TRIPEIRO” ANTECIPOU EM 2010 A TRANSFORMAÇÃO COSMOPOLITA DA RUA DA PICARIA?

 

Nestes tempos de pandemia, aproveitamos para revisitar algumas edições de O TRIPEIRO dos últimos anos, a centenária revista da Associação Comercial do Porto que é guardiã da história e do património da cidade desde 1908. Neste caso, espreitamos um texto do jornalista João Pedro Barros publicado na edição de dezembro de 2010.

 

Pode adquirir as edições mensais da revista O TRIPEIRO nos serviços do Palácio da Bolsa através dos contactos disponíveis na página de Facebook da Associação Comercial do Porto.

 

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RUA DA PICARIA – A ARTÉRIA DOS MÓVEIS ESTÁ A TORNAR-SE COSMOPOLITA

 

Ainda aqui se compram móveis, mas a rua onde em 1934 nasceu Francisco Sá Carneiro está a mudar, visivelmente. Continua a haver quem aí se desloque sobretudo à procura das marcenarias, mas estas já não são o que eram antes. Também já aí se encontra um bar, uma galeria e uma loja de discos, para além de um restaurante com tradição e qualidade. E há ainda novos habitantes, que estão a fazer nascer na Picaria mais um pólo cosmopolita da Baixa.

 

João Pedro Barros

 

Para a maior parte dos portuenses, a Rua da Picaria é sinónimo de móveis. A carpintaria e a marcenaria, a par da venda de mobiliário, ainda são as actividades dominantes, mas o negócio atravessa um período de acentuada decadência. Ao mesmo tempo, sente-se um sopro de modernidade, que promete mudar a face da rua nos próximos anos.

O expoente máximo desta renovação é a galeria de ilustração e desenho Dama Aflita, que abriu em Novembro de 2008. O espaço é pequeno, mas suficiente para albergar obras nestes suportes. “Queremos fomentar coisas de bairro, criar situações de diálogo, por exemplo, com as lojas de mobiliário”, adianta Júlio Dolbeth, ilustrador, docente universitário e um dos promotores. O artista madrileno Luís Urculo, com trabalhos em técnica mista, foi o primeiro a expor na galeria, que é “pioneira em Portugal” na sua abordagem. No mesmo edifício está a loja de discos Matéria Prima (que migrou da Rua de Miguel Bombarda, dedicando-se essencialmente à música electrónica), a Cinbol (uma empresa de organização de eventos e consultoria, nomeadamente de imagem) e o Estúdio384, uma empresa de ‘webdesign’ e multimédia.

Estará a Picaria a ser contaminada pelos ares cosmopolitas da vizinha José Falcão, ou mesmo de Miguel Bombarda? Inês Costa e Simão Bolívar, os dois sócios da Cinbol, e Júlio Dolbeth, todos moradores na Baixa do Porto, acham que sim e que as indústrias criativas vão dar cartas.

Nas lojas de móveis, o sentimento é distinto. Visitámos algumas (garantiram-nos que há seis em actividade, mas nem todas estavam abertas) e percebemos que está a terminar um ciclo. Há falta de condições de estacionamento e a maioria das peças tem um design datado. A actividade sobrevive graças a um punhado de clientes fiéis e de meia-idade. Os comerciantes resignam-se e também aceitam culpas: “Nunca estivemos unidos, e há coisas que não se pode mudar sozinho”, admite José Carvalho, da Carvalho & Cunha, Lda.

 

Uma rua de “boas famílias”

 

Quem chegou a prometer mudar o país foi a mais célebre personalidade nascida nesta artéria íngreme, em 1934: Francisco Sá Carneiro. O primeiro presidente do PSD cresceu no número 49, uma casa ampla e própria de uma família burguesa, e montou ainda, do outro lado da rua, o seu escritório de advocacia. Hoje é Miguel Veiga, também ele fundador do Partido Social Democrata, que exerce a actividade na Picaria.

Ao andar de porta em porta, encontrámos o cicerone ideal para conhecer a história da vizinhança: Reinaldo Pereira, gerente de O Ernesto, restaurante de cozinha tradicional portuguesa, no número 85. O actual proprietário tomou conta do negócio em 1990, depois de o herdar do seu pai, Ernesto Pereira, que comprou o estabelecimento em 1968. Reinaldo Pereira viveu na Picaria desde os 14 anos, mesmo por cima do restaurante, e fala de uma rua de “boas famílias”, onde, antigamente, “até vinha gente de Lisboa” comprar mobiliário. Do passado, guarda um episódio marcante: o dia da morte de Sá Carneiro, quando a massa humana que aguardava o comício em que o político deveria estar presente, no Coliseu do Porto, se dirigiu para a rua, após a notícia do acidente em Camarate. “Isto estava cheio de gente a gritar contra os comunistas. Era de arrepiar”, relembra.

Quanto ao restaurante, não se deixe enganar pelos azulejos datados da entrada: eles são o que resta dos distantes anos 1960, porque agora O Ernesto tem duas acolhedoras salas (e até um pátio) nas traseiras, com uma pequena cascata e quadros de Henrique do Vale e Augusto Canedo. A comida é tipicamente portuguesa, de sabor caseiro, e um comensal ponderado até pode sair de lá com uma conta de apenas dez euros.

Onde também há quadros nas paredes é na Moldursant, uma loja de molduras e materiais para Belas Artes que já data de 1917. Esta casa é uma das referências do Porto para artistas e estudantes da área e consegue escapar à crise mais profunda dos “vizinhos” do mobiliário. Obras de nomes como Sobral Centeno e Júlio Resende foram sendo doadas à gerência e servem agora de decoração à loja. Alguns jovens artistas também deixam trabalhos em exposição na Moldursant, o que a torna numa espécie de galeria.

Continuando nas artes, acrescente-se que o Teatro Art’Imagem tem aqui instalações.

E resta-nos falar do Rosa Escura (o nome vem do seu papel de parede), o único bar da rua. Só abre à noite e o ambiente é calmo e acolhedor. Nesta antiga loja de bicicletas, há sempre peças de joalharia, quadros e esculturas em exposição.

Fazendo um pouco de batota, podemos ainda incluir neste artigo o Candelabro, um antigo alfarrabista transformado em café-bar. A porta de entrada é na Rua da Conceição, mas a sua inauguração, há um ano, contribuiu para colocar a Picaria no mapa da ‘movida’, até porque a animada Praça D. Filipa de Lencastre também é ali bem perto. Na montra do Candelabro há livros e revistas “vintage”, maioritariamente sobre cinema, e lá dentro manteve-se o chão com mosaicos pretos e brancos e algumas estantes. O ambiente é propício para um copo com os amigos, ao final da tarde, mas a porta mantém-se aberta até às 02h00.

Para quem se questiona sobre a origem do nome da rua, aqui vai a resposta: falar em picaria é o mesmo que falar em equitação e sabe-se que a artéria tinha várias actividades relacionadas com os cavalos, até ao primeiro quartel do século XX. Depois vieram os móveis.

Estaremos na fase da transição para uma nova Picaria? Reinaldo Pereira julga que sim, e garante que um prédio recentemente recuperado tem os seus sete apartamentos “já alugados”. A Picaria parece estar a recuperar alguns moradores, principalmente jovens, depois de um processo de desertificação iniciado nos anos 1980.

 

 

NOTA DO EDITOR

 

Este texto de João Pedro Barros é uma reedição e actualização do que foi originalmente publicado no jornal PÚBLICO de 15 de Dezembro de 2008. Com ele, O TRIPEIRO dá continuidade a uma nova secção, Ruas d’Hoje, sobre o estado actual e a “movida” das principais ruas da cidade, e que será publicada em alternância com a rubrica O Nome da Rua, esta mais virada para a vertente histórica da toponímia portuense.