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SABIA QUE… D. MANUEL CLEMENTE FOI BISPO DO PORTO DURANTE SEIS ANOS?

SABIA QUE… D. MANUEL CLEMENTE FOI BISPO DO PORTO DURANTE SEIS ANOS?

 

Revisitamos algumas edições de O TRIPEIRO dos últimos anos, a centenária revista da Associação Comercial do Porto que é guardiã da história e do património da cidade desde 1908. Neste caso, espreitamos a edição de agosto de 2013.

 

Pode adquirir as edições mensais da revista O TRIPEIRO nos serviços do Palácio da Bolsa através dos contactos disponíveis na página de Facebook da Associação Comercial do Porto.

 

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Homenagem

 

  1. Manuel Clemente: adeus ao Porto

 

Ao fim de seis anos, a cidade do Porto despediu-se do bispo D. Manuel Clemente, novo patriarca de Lisboa nomeado pelo Papa Francisco. Na sessão de homenagem que decorreu no Palácio da Bolsa no passado dia 26 de Junho (de 2013), uma das intervenções coube a Luís Braga da Cruz, presidente da Fundação de Serralves. É precisamente essa intervenção, de caráter fortemente pessoal, que aqui reproduzimos, numa homenagem a que O TRIPEIRO, deste modo, também se associa.

 

O meu conhecimento pessoal com o Senhor D. Manuel Clemente não vem de longe. Foi há cerca de 10 anos, em Lisboa, em casa de amigos comuns.

Na altura surpreendeu-me, não só pela forma cativante da sua conversa, mas sobretudo pela sua argumentação desconcertante. Não foi difícil aperceber-me que estava perante uma pessoa culta e conhecedora. Porém, talvez mais subtil, foi compreender que a pessoa que acabava de conhecer e com quem, mais tarde, viria a ter o privilégio de privar, tinha uma outra importante característica. O seu conhecimento não era apenas a reposição do que lera e que a sua memória, aliás excepcional, retivera. Muito pelo contrário, revelava que sabia relativizar o que era consabido e que os outros repetiam.

Percebi que o Sr. D. Manuel sabe pensar de forma independente, com concisão e sentido pedagógico, saindo das opiniões consensuais, questionando outras possíveis razões para um problema. E tudo acompanhado de uma extraordinária afabilidade e paciência para ouvir, chegando a valorizar as banalidades que dos outros vêm, fazendo-nos sentir mais confiantes, mas tendo como claro propósito a orientação da conversa num sentido útil.

Mais tarde, em Fevereiro de 2007, tive uma oportunidade rara de me incorporar numa viagem, impecavelmente organizada pela ACEGE, à Terra Santa, a qual tinha a particularidade de ser superiormente orientada pelo Sr. D. Manuel Clemente e em cujo grupo havia várias pessoas do Porto. Embora ninguém disso suspeitasse naquele momento, o próprio já era sabedor do seu futuro destino pastoral à frente da diocese do Porto. Tinham-nos avisado que esta viagem aos lugares santos não seria propriamente uma excursão turística. Porém, estávamos longe de pensar como iria deixar marcas tão profundas em todos os que nela participaram. Éramos peregrinos no sentido medieval da palavra, visitávamos com devoção lugares com forte significado para a interpretação da nossa civilização, da nossa maneira de ser, de crer e de estar. Escusado será dizer que a dimensão espiritual, histórica e cultural do Sr. D. Manuel em muito valorizou o que aquele território sagrado nos proporcionava. A nossa visão do mundo passou a ser diferente depois disso e porventura a nossa relação com os outros também.

Recordo-me na altura de algumas perguntas que ele me fazia sobre o Porto, sem que eu, na minha inocência, imaginasse o que já o preocupava. Uns dias depois, quando a boa notícia surgiu e nos encheu de alegria, percebemos como aquela ida à Terra Santa terá sido importante para o Sr. D. Manuel reflectir sobre o seu novo mandato pastoral à frente da sua nova diocese.

Vivo nesta cidade desde 1962, ano em que vim estudar para a Universidade do Porto, e nesta cidade acompanhei a vida da Igreja Diocesana, salvo dois curtos períodos em que tive de viver em Lisboa. Quando estudante, tive grande proximidade com o saudoso D. Armindo Lopes Coelho, quando ele era assistente da JUC (Juventude Universitária Católica). Essa relação pessoal levou a que me mantivesse atento às suas actividades diocesanas em Viana do Castelo e depois no Porto. Também terá contribuído para isso a circunstância de ter tido a responsabilidade da gestão regional dos recursos públicos do Estado para o chamado equipamento religioso, entre 1986 e 2000.

Mais concretamente e no que respeita à cidade do Porto, trouxe-me muitos ensinamentos ter presidido á Fundação para o Desenvolvimento da Zona Histórica do Porto (projecto social de luta contra a pobreza), que me levou a ter inúmeros contactos com os párocos, as instituições locais e com os dois bispos de então – D. Júlio Tavares Rebimbas e D. Armindo Lopes Coelho.

Tudo o que fica dito abre-me caminho para exprimir o meu sentimento pessoal sobre o carácter decisivo da figura do Bispo da Diocese do Porto.

Sendo o Porto a segunda cidade do país e a capital de uma região plena de dinamismo social, cultural e económico, com fortíssima identidade territorial mas também com problemas específicos de alguma complexidade, haverá uma natural assumpção nas pessoas do Norte e também do país de que o Bispo do Porto não deve ser entendido como um pastor diocesano como os outros, esperando-se que seja uma figura com estatuto e voz nacionais. Aliás, foi essa a herança de outras figuras singulares e por vezes rebeldes, como no caso de D. António Ferreira Gomes (1952-1982) e, mais longinquamente, de D. António Barroso (1899-1918). O Senhor D. Manuel Clemente, embora num estilo diferente, também os soube honrar, tal como o compreenderam os outros dois grandes prelados da segunda metade do século XX que conheci e já invoquei.

Senhor D. Manuel Clemente, permita-me que cometa aqui hoje uma inconfidência, que só o ambiente deste dia e a grande estima e consideração que todos lhe devotamos me autorizaria, para relatar um episódio que se passou em Maio de 2007. Pouco depois de o Sr. D. Manuel Clemente ter assumido responsabilidades no Porto, entendi que lhe deveria proporcionar uma aproximação às temáticas do desenvolvimento e da equidade regional, matérias a que aqui no Norte somos particularmente sensíveis. Convidei-o para um encontro em minha casa onde juntei quatro ex-presidentes da Comissão de Coordenação Regional do Norte e mais alguns amigos sensíveis ao mesmo tema. A conversa foi de tal forma interessante que o Sr. D. Manuel teve a amabilidade de a caracterizar como tendo sido para si quase um curso intensivo de política regional. Irrequieto como é, logo se inspirou para, estimulado por aquilo que ouvira, elaborar a sua primeira Nota Pastoral (Nota Pastoral no Vigésimo Quinto Aniversário da Visita do Papa João Paulo II à Cidade do Porto, Porto 15 de Maio de 2007) justamente sobre “as atuais circunstâncias locais e regionais”, retomando o essencial do discurso que o Papa João Paulo II fizera na Avenida dos Aliados, no Porto, dirigida ao mundo do trabalho, 25 anos antes. Aproveitou a nota para se referir às dificuldades empresariais, ao desemprego, aos novos surtos emigratórios em busca de trabalho que já então escasseava, ao abandono escolar que aqui era mais frequente, aos atrasos na qualificação técnica e às lacunas na formação especializada, enfim, a desencantos e a motivações. Nela reconhecia a riqueza dos compromissos solidários que encontrara no Porto, tanto a nível pessoal, como institucional ou associativo. Recordava o contexto, para reforçar o ponto essencial do discurso de João Paulo II, no Porto, em 1982, “a dignidade da pessoa humana, como referência constante da análise que se faça e da solução que se procure em qualquer situação social e económica”. O Papa terminava por requerer a toda a comunidade política que reconhecesse “não só a importância do trabalho como o próprio direito ao trabalho e que tudo se tente no sentido de eliminar o emprego e o subemprego”. Acontece que estas citações continuam hoje a ser tão oportunas como nos dois momentos antes referidos, tendo tido o Sr. D. Manuel coragem e lucidez quando as convocou para a sua primeira nota pastoral.

Ainda recordando momentos de experiência pessoal com o Senhor D. Manuel Clemente, gostava de referir que, por sua escolha e generosidade, tive o privilégio de pertencer ao Conselho Pastoral Diocesano, onde muito apreendi e onde encontrei gente genuína, religiosos e leigos, de muita qualidade e, sobretudo, de grande dedicação à causa da Igreja Portucalense.

Tal proximidade revelou-me um outro atributo dos prelados da diocese do Porto, que D. Manuel Clemente também honrou, a capacidade de inovação pastoral, talento que muito tem contribuído para o desenvolvimento de um novo sentido de missão. Posso testemunhar que nos últimos seis anos a igreja do Porto se sentiu muito motivada em torno do seu Bispo.

Pelos sinais que me chegam de múltiplos sectores da cidade, a elevação do Senhor D. Manuel ao Patriarcado de Lisboa pode ser considerada uma perda para o Porto, embora este sentimento seja mitigado pela generalizada compreensão em face dos novos desafios que a Igreja lhe pede, convictos que a passagem pelo Porto o enriqueceu e lhe facultou novas dimensões da realidade social com que a Igreja hoje se confronta.

Nestes anos, ficou bem demonstrado que o Senhor D. Manuel nunca se esquivou ao contacto com a sociedade contemporânea. Sempre respondeu aos desafios que lhe eram colocados, estando presente com a sua palavra esclarecida e orientadora. Soube ser hábil na conciliação entre o homem de cultura bem relacionado com o mundo e a preocupação apostólica de bispo.

Habituou-nos a um padrão de exigência e dedicação muito elevado, caminho que colocará ao seu sucessor desafio e motivação. Mas como é convicção dos crentes e o Sr. D. Manuel com frequência nos recordava, a Igreja não é apenas obras dos homens, mas de Deus. Se fosse mera construção humana já há muito teria esmorecido.

Há assim esperança que o sentimento de perda possa ser ultrapassado pela convicção de que a sua estadia no Porto terá contribuído para o seu enriquecimento pela proximidade às gentes do Norte, ao seu sentido de responsabilidade, de aplicação ao trabalho, de amor à liberdade e de capacidade de sofrimento e de dedicação aos outros.

Enfim, passamos a ter alguém em Lisboa que nos compreende melhor e que saberá ser nosso valedor perpétuo, junto das instâncias mais próximas do poder.

Uma nota final sobre a dimensão de D. Manuel Clemente como homem de cultura, fazendo agora apelo à minha condição de responsável por uma instituição cultural da cidade. Serralves, como não podia deixar de ser, não escapou à sua atenção, como projecto nacional simbólico, que surge como expressão da vontade da gente do Porto e do Norte. Trata-se de uma ambição de resposta às aspirações daqueles que querem ser do seu tempo, do nosso tempo. Como projecto de cultura contemporânea, Serralves aspira a corresponder a um desígnio formativo, qual seja o de contribuir para que possamos compreender as preocupações dos criadores dos nossos dias, valorizando a capacidade inovativa com factor de preparação do futuro.

Sabemos que a Igreja, num passado recente, teve alguma dificuldade em conciliar conceitos estéticos clássicos com as expressões mais surpreendentes que povoam o espírito criativo dos artistas contemporâneos.

Esta atitude de receio e cautela, no entanto está a mudar. Ainda recentemente, na 50.ª Bienal de Veneza, e pela primeira vez na história deste avançado acontecimento cultural, a Santa Sé esteve presente com um manifestação própria e autónoma, dando sinal que a Igreja está atenta ao sentimento do público aberto á contemporaneidade.

O Sr. D. Manuel foi visitante de Serralves e interessou-se pela sua programação. A sua inesperada saída para o Patriarcado de Lisboa não me deu tempo de concretizar uma ambição: a de o desafiar a fazer uma conferência em Serralves sobre o que pensa da Arte Contemporânea. Já não foi possível concretizar esse desafio até ao dia 7 de Julho. Mas é uma boa razão para o convidar a vir ao Porto de novo, porque ir para Lisboa não é abandonarmos.

Entretanto peço que aceite uma oferta simbólica: um cartão de Amigo de Serralves, para sempre. Assim, poderá ter mais uma boa razão para voltar a vir muitas vezes e se sentir bem entre nós, como se sentiu nos últimos 6 anos, porque será sempre um dos nossos maiores.

Muito obrigado e votos de sucesso.

 

(texto de Luís Braga da Cruz, presidente da Fundação de Serralves)

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“Portugal precisa de ser um grande Porto”

 

O novo patriarca de Lisboa despediu-se da Diocese do Porto, onde foi bispo desde 2007, afirmando que o país precisa de seguir o exemplo da cidade nortenha, neste momento de crise. “Levo para Lisboa o Porto, porque Portugal precisa de ser um grande Porto, em todos os sentidos da palavra”, afirmou D. Manuel Clemente, no Palácio da Bolsa do Porto, sob os aplausos dos presentes. O prelado falava durante uma sessão de homenagem promovida pela Santa Casa da Misericórdia do Porto, a que aderiram instituições e cidadãos. “O que eu tenho verificado de capacidade de avançar, e ainda antes de avançar, de resistir – de não fechar, de manter aberto, de inovar, de criar postos de trabalho, de andar para a frente às vezes com muito poucos recursos – é admirável, é admirável”, disse o patriarca eleito de Lisboa.

  1. Manuel Clemente adiantou aos jornalistas quais são as suas intenções relativamente à relação que vai estabelecer com o poder político na capital portuguesa. “O poder político, quer do atual Governo quer do anterior, já vinha aqui falar comigo, de vez quando, não por ser eu, mas por ser intérprete de uma grande instituição, aqui do Norte, como é a Igreja Católica”, explicou. “Esse diálogo vai continuar, com certeza, porque, se não se lembrarem, lembro-me eu”, acrescentou.

Rui Rio, presidente da Câmara do Porto, recordou a coincidência de tanto ele como D. Manuel Clemente estarem “prestes a terminar as missões de que fomos incumbidos em prol dos cidadãos do Porto”. “Estou certo que, mesmo assim, ambos também continuaremos a pugnar por ideais complementares em prol de uma sociedade justa e de valores perenes”, afirmou. O autarca elogiou a “mundividência cristã”, a forma de “olhar o mundo”, “estatuto cultural” e “humanismo solidário” de D. Manuel Clemente, que fazem dele “uma grande personalidade” da sociedade portuguesa.

António Tavares, provedor da Santa Casa da Misericórdia do Porto (SCMP), falou numa “homenagem dos afetos” a um homem que “soube ser construtor de consensos”.

Rui Moreira, presidente da Associação Comercial do Porto, abriu a sessão que contou com intervenções de José Marques dos Santos, reitor da Universidade do Porto, e do presidente da Fundação de Serralves, Luís Braga da Cruz [cuja intervenção se reproduz nestas páginas].

 

Agência Ecclesia