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SABIA QUE… O PÁTIO DAS NAÇÕES FOI DURANTE DÉCADAS O PRINCIPAL FÓRUM DOS NEGOCIANTES DO PORTO?
SABIA QUE… O PÁTIO DAS NAÇÕES FOI DURANTE DÉCADAS O PRINCIPAL FÓRUM DOS NEGOCIANTES DO PORTO?
Revisitamos algumas edições de O TRIPEIRO dos últimos anos, a centenária revista da Associação Comercial do Porto que é guardiã da história e do património da cidade desde 1908. Neste caso, espreitamos a edição de abril de 2010.
Pode adquirir as edições mensais da revista O TRIPEIRO nos serviços do Palácio da Bolsa através dos contactos disponíveis na página de Facebook da Associação Comercial do Porto.
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Destaque
O imponente Pátio das Nações
O Pátio das Nações foi durante décadas o principal fórum dos negociantes do Porto, que assim passaram a ter um espaço tanto para reuniões públicas como para assuntos de negócio. Foi aqui que funcionou a “Bolsa Oficial Geral do Porto”, para cujo efeito se mobilou o espaço segundo o modelo da Bolsa de Bordéus e se criaram estruturas de aquecimento para o período de Inverno.
O Pátio das Nações, resultante da cobertura e pavimentação do pátio interior do antigo convento, é um hino às relações comerciais, enunciado em tempos de euforia livre-cambista.
Na fase final da sua construção participou o arquitecto Tomás Soller, entre 1879-1883, nomeadamente na alteração do projecto de cobertura e direcção das respectivas obras até à sua conclusão. Soller era um arquitecto com passagem por Paris e com algumas obras particulares na cidade, tendo ainda ligação à empresa Caminho de Ferro do Minho. O respectivo concurso para a obra da cobertura metálica envidraçada foi tornado público em 24 de Agosto de 1880 (no sexagésimo aniversário da revolução liberal de 1820, que se desenvolveu a partir do Porto: mais um pormenor que revela a ligação do Palácio à memória liberal). Sublinhe-se que ao concurso para a cobertura metálica surgiram propostas da casa Eiffel, embora a obra tenha sido entregue à Casa Burnay, de Lisboa.
Se a belíssima cúpula, arquitectada em ferro e vidro, sustentada em 24 colunas de tipo clássico em ferro fundido, filtra a claridade e dá à luz solar tonalidades amenas, os painéis do tecto exprimem as armas nacionais das principais nações com que Portugal mantinha relações comerciais na época: Saxe, Itália, Brasil e Pérsia; Argentina, Rússia, Inglaterra, Alemanha e Suiça; Dinamarca, México, França, Estados Unidos da América e Grécia; Suécia, Noruega, Áustria, Espanha, Bélgica e Holanda.
As pinturas da sanca, com formas e motivos idealizados por Tomás Soller, foram desenhados e pintados por Luigi Manini (que estudou em Milão, foi cenógrafo em S. Carlos e autor de projectos para os palácios de Sintra e Buçaco), sendo finalizados por Silva Pereira e João Baptista do Rio.
Note-se que os painéis das cantoneiras inserem neste quadro referências às principais datas históricas relacionadas com acontecimentos da Associação Comercial do Porto:18 de Setembro de 1833, data da promulgação do Código Comercial; 2 de Agosto de 1834, instalação do Tribunal do Comércio no Porto; 24 de Dezembro de 1834, data da fundação da Associação Comercial; 6 de Outubro de 1842, início oficial das obras do Palácio.
Faça-se ainda uma referência à natureza do pavimento cerâmico, vindo da Alemanha, e à geometria do desenho que o enforma. Produz-se aqui um efectivo cruzamento de estilo e de materiais, com a arquitectura do ferro (com relevo para as 24 colunas) e do vidro, na sua leveza e luminosidade, a penetrar no interior da solidez granítica conferida pelo estilo paladiano que o Palácio exterioriza.
Constituindo o Pátio das Nações um dos espaços mais virtuosos do Palácio da Bolsa, vale a pena recordarmos a forma como Tomás Soller explicava a sua concepção da cobertura:
“Sendo uma das primeiras necessidades, no Edifício da Praça e Tribunal do Comércio do Porto, a existência de um recinto espaçoso e cómodo para nele se efectuarem as diferentes transacções comerciais, aproveitei a ideia que já de há muito prevalecia, destinando para esse fim o pátio ou átrio do edifício, exposto até agora, ao rigor das estações, e projectando uma armação de ferro para a sua cobertura (…)
Atendendo ao peso específico da cobertura e ao impulso dos máximos ventos, julguei prudente aliviar as paredes de toda essa carga, fazendo-a sustentar toda em colunas de ferro fundido, as quais exercessem ao mesmo tempo, as funções de condutores das águas pluviais, recebidas na superfície exterior da cobertura.
Esta armação é composta de ferro fundido e laminado, sendo sustentada por vinte e quatro colunas dispostas em volta do pátio, à distância de 0,40m das paredes, e tendo 15,85m de comprido, e achando-se ligadas às paredes na altura da cornija do primeiro andar por meio duma placa intercalada entre as colunas sobrepostas, indo penetrar no interior dos capiteis pela parte superior.
Esta placa é fixada por meio dum gato cravado no interior das paredes, ao nível da parte superior da cornija, ficando, portanto, oculta por ela.
Na base, as colunas são fixadas de uma maneira análoga pela parte interior, de maneira a não ser vista a sua ligação pelo lado exterior.
Na parte superior das paredes assenta um freixal composto de duas fortes cantoneiras colocadas em volta do pátio e ligadas por chapas e cantoneiras transversais aos capitéis das colunas, sendo ligadas intermediariamente entre si por um encruzamento de barras de ferro.
Neste freixal assentam os pés de vinte e quatro arcos em quarto de círculo, colocados na direcção de cada coluna, tendo todas as mesmas dimensões e sendo calculadas para suportar nas suas extremidades livres a carga total da estrutura metálica, assim como a sobrecarga dos máximos ventos, tudo avaliado em 80.000 quilogramas.
Estes arcos são formados por cantoneiras com montantes e uma chapa de alma recortada para ornamentação.
As extremidades livres dos arcos são apoiadas sobre uma viga de chapa lisa de 1,25m de altura.
Sendo esta ligação destinada a suprimir o esforço, os consoles são reforçados por meio de contrafortes, ficando o console de chapa, interior, encoberto por uma misula de ferro fundido.
Os intervalos dos consoles são destinados a representar em pintura diferentes ornamentos.
Sobre a parte superior da viga está colocada uma chapa horizontal de 0,65m de largura para combater o esforço lateral e ao mesmo tempo receber uma cornija ornamentada de ferro fundido encobrindo as extremidades inferiores das asnas.
Estas asnas são feitas de cantoneira e barras de ferro chato em forma de cruz de Santo André sendo a sua altura média 0,35 em baixo e 25 em cima, convergindo no centro a um arco sólido de viga, que serve de apoio ao lanternim e que foi colocado de forma a suportar a pressão total da estrutura.
As asnas são ligadas entre si por seis ordens de madres construídas com vigas de 0,12m sobre as quais se apoiam os ferros destinados a receber os vidros.
As partes inferiores das asnas formam no exterior uma parede vertical com um painel de ferro fundido aberto para a ventilação.
Consoles exteriores ligadas às asnas formam o prolongamento da cobertura e impedem que as águas pluviais penetrem no edifício.
A base do lanternim tem uma ornamentação análoga para facilitar a ventilação.
Uma grande peça destinada a iluminação do pátio completa a ornamentação e, ao mesmo tempo, liga o conjunto das asnas semi-circulares do lanternim.
As asnas rígidas assentes sobre a viga fixada nos arcos de base, somente pelo seu peso, não exercem esforço lateral de espécie alguma sobre as paredes.
A forma poligonal da estrutura, a ligação das madres, a viga de base, e o freixal dos mesmos, destroem absolutamente qualquer esforço que ainda possa existir (…) (Relatório da Associação Comercial do Porto,1881:56-58)
Este Pátio foi durante décadas o principal fórum dos negociantes do Porto, que assim passaram a ter um espaço tanto para reuniões públicas como para assuntos de negócio. Foi aqui que funcionou a “Bolsa Oficial Geral do Porto”, até há pouco tempo, para cujo efeito se mobilou o espaço segundo o modelo da Bolsa de Bordéus e se criaram estruturas de aquecimento para o período de Inverno. Legislada em 28 de Janeiro de 1891, a Bolsa do Porto foi inaugurada a 21 de Novembro desse ano, com a presença real de D. Carlos e da rainha Dona Amélia.
E aqui se realizaram e realizam muitos acontecimentos de realce na vida social da cidade do Porto, de reuniões oficiais a banquetes, festas e exposições, quando o número previsível de participantes é elevado em número e dignidade.
NOTA DO EDITOR
Extractos do livro “Palácio da Bolsa, edifício e sortilégio” do historiador Jorge Fernandes Alves


