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SABIA QUE… OS SABONETES ERAM UM EXCLUSIVO DOS MAIS RICOS ATÉ FINAIS DO SÉC. XIX?

SABIA QUE… OS SABONETES ERAM UM EXCLUSIVO DOS MAIS RICOS ATÉ FINAIS DO SÉC. XIX?

 

Nestes tempos de pandemia, confinamento em casa e teletrabalho, aproveitamos para revisitar algumas edições de O TRIPEIRO dos últimos anos, a centenária revista da Associação Comercial do Porto que é guardiã da história e do património da cidade desde 1908.

 

Neste caso, espreitamos a edição de setembro de 2017 para reler um texto sobre a Claus & Schweder, uma fábrica do Porto que foi pioneira em Portugal na indústria de perfumaria e dos sabonetes.

 

Pode adquirir as edições mensais da revista O TRIPEIRO nos serviços do Palácio da Bolsa através dos contactos disponíveis na página de Facebook da Associação Comercial do Porto.

 

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Empresas com História

 

Fábrica pioneira em Portugal na indústria da perfumaria e sabonetes

 

As emblemáticas Claus & Schweder e Ach. Brito

 

Este texto integra um trabalho de investigação desenvolvido por Sónia Couto sobre duas emblemáticas fábricas históricas do Porto – que também correspondem a marcas fortíssimas da nossa cidade: Claus & Schweder e Ach. Brito. Até finais do século XIX, a indústria de perfumaria e sabonetes era praticamente inexistente em Portugal, sobretudo devido à não utilização de sabonetes na higiene pessoal. Só a partir daí é que a indústria química se desenvolveu. É precisamente nesse contexto que que ocorre a fundação, em 1887, da então denominada Fábrica de Produtos Chimicos Claus & Schweder, pioneira em Portugal na indústria de perfumaria e sabonetes.

 

 

Em Portugal, até aos finais do século XIX, a indústria de perfumaria e sabonetes era praticamente inexistente, sobretudo devido à não utilização de sabonetes na higiene pessoal da população e pelas precárias condições de higiene domésticas existentes. Só os mais ricos usavam sabonetes transparentes e coloridos vindos do estrangeiro, ao passo que a maioria da população recorria ao sabão normal. O fabrico mecânico estava ainda a dar os primeiros passos, fruto da difusão da energia a vapor e a chegada até nós das inovações tecnológicas trazidas pela II Revolução Industrial. Somente nos finais século XIX, inícios século XX, é que a indústria química se desenvolveu. E é neste contexto que é fundada em 1887 a Fábrica de Produtos Chimicos Claus & Schweder, pioneira em Portugal na indústria de perfumaria e sabonetes.

A Claus & Schweder foi constituída por dois alemães, Ferdinand Claus e Georg Phillip Schweder. Ferdinand Claus já tinha dado provas de trabalho e conhecimento desta indústria, cujas qualidades de carácter e dotes de trabalho haviam conquistado no Porto a melhor estima. Por sua vez, Georg Schweder, químico de profissão, tinha vindo para Portugal para trabalhar como analista.

Desconhece-se a data de chegada destes dois alemães ao Porto. Sabe-se no entanto que Ferdinand Claus adquiriu saber e experiência nesta área pois era importador de vários artigos, sabendo bem que os sabonetes e perfumaria consumidos nesta época em Portugal vinham do estrangeiro e que o seu consumo era muito baixo tendo em conta a população existente no país.

Ferdinand Claus nasceu em Kassen, na Alemanha e já no Porto casou-se com Luisa Sophia Moller, uma alemã cuja família já residia no Porto. O casal alemão viveu na Rua Marechal Saldanha, nº 588-604-614, no Porto.

A fábrica criada por Ferdinand Claus e Georg Phillip Shweder mantinha no anonimato a origem dos seus produtos, utilizando a marca “FPC” (as iniciais de Fábrica de Produtos Chimicos) nas suas embalagens, como forma de poder fazer frente ao espirito português de depreciação dos produtos nacionais em prol dos estrangeiros, conquistando assim a preferência não só dos consumidores como também dos revendedores.

Esta pequena mas próspera indústria iniciou-se de forma modesta na Rua de São Dinis, perto do antigo matadouro, num armazém de uma única e grande porta, um recinto amplo com uma pequena caldeira de vapor, recipientes para a saponificação e outros apetrechos indispensáveis para o fabrico e acabamento dos produtos.

Mais tarde, em 1891, visto que os produtos que fabricavam já tinham ganho reconhecimento no mercado, Ferdinand Claus decide criar uma fábrica de raiz, comprando um terreno na Rua Serpa Pinto, nº 195, onde se construiu uma fábrica dotada de máquinas de vanguarda, iguais às que uma casa francesa da especialidade apresentou na Exposição de Paris em 1887. As preocupações da Claus & Schweder iam além da inovação tecnológica, pois eram frequentes as viagens de estudo a laboratórios estrangeiros da especialidade, trazendo consigo as últimas novidades nesta indústria.

Toda a documentação legal sobre esta fábrica surge a partir de 1891, nomeadamente o Alvará de Licenciamento que se encontra no Arquivo Distrital do Porto, bem como o registo industrial do nome da empresa e também as licenças de obra pedidas à C.M. Porto. Os Boletins de Propriedade Industrial existentes no INPI (Instituto Nacional de Propriedade Industrial), dão conta que o nome Fábrica de Produtos Chimicos composta por três letras (F.P.C.) entrelaçadas em forma de monograma e tendo por baixo os dizeres “Marca da Fábrica”, foi registado por Ferdinand Claus em 1892. E só em 1895 é registado o nome Fábrica de Produtos Chimicos Claus & Schweder.

A construção da nova fábrica teve várias fases de acordo com as licenças de obras requeridas à C.M. Porto relativas ao novo edifício na Rua Serpa Pinto, tendo a construção do edifício ter sido iniciada em 1891. Em 1895 é requeria uma licença para a construção de uma rampa de acesso e só em 1896 é que é construído um anexo destinado ao escritório da fábrica. Um ano mais tarde, em 1897, é construído um armazém e uma casa para o guarda. Apenas em 1907 são construídos novos escritórios e armazéns na fábrica, sofrendo ainda outras ampliações em 1910 e 1911, requeridas por Ferdinand Claus. Após esta data, não se conhecem mais licenciamentos de obras relativas a intervenções realizadas no edifício a pedido de Ferdinand Claus ou da Claus & Schweder.

Os únicos registos gráficos ou fotográficos deste edifício encontrados resumem-se aos desenhos incluídos nas licenças de obra, uma fotografia panorâmica da autoria de Aurélio da Paz dos Reis existente no Centro Português de Fotografia, em que mostra ao longe a fábrica do Claus, (como está intitulada a imagem), duas fotografias existentes no acervo da Ach. Brito – uma mostrando parte da fachada da fábrica e outra no interior da mesma, com os seus sócios e colaboradores – e ainda um rótulo antigo com um desenho de uma fábrica, que se presume ser a Claus &Schweder.

A Fábrica de Produtos Chimicos Claus & Schweder começou por fabricar sabonetes transparentes e mais tarde sabonetes finos com uma variedade de aromas e tonalidades. Apesar de ocultarem a origem portuguesa dos seus produtos, este segredo viria a ser descoberto devido a um incidente que nos é relatado no livro de comemoração das bodas de ouro da Claus & Ach. Brito: “(…) quando a senhora que costumava transportar as caixas de cartão onde eram acondicionados os sabonetes, que eram fabricadas fora, ao atravessar o largo do Carmo no caminho para a Fábrica na Rua de Serpa Pinto, tropeçou e caiu com ela a grade cheia de caixas, estas espalharam-se pelo chão e logo quis o destino que passasse nesse instante por ali um dos seus revendedores. Ao descobrir que afinal os sabonetes não vinham do estrangeiro, este revendedor terá ido a correr ao escritório de Ferdinand Claus, demonstrando a sua indignação. Claus, porém, com o seu fino tato e com a razão que lhe assistia, não teve dificuldades de maior em fazer-lhe ver a necessidade desse inocente e legítimo subterfúgio, num país onde a mania de adorar o que é estrangeiro e de mal tratar o que é nacional, teriam de outra forma impedido a criação da sua indústria. E o “descobridor” prometeu guardar segredo e continuar a comprar os mesmos sabonetes “estrangeiros” de tão boa qualidade”.

 

Sabonetes recomendados pela classe médica

 

Os sabonetes medicinais produzidos pela Claus & Schweder eram de tão qualidade que foram publicitados na Revista “A Medicina Moderna”, ao longo de todo o ano de 1899 até Janeiro de 1900. Dentro desta gama de sabonetes destacavam-se os sabonetes medicinais de acido bórico, acido phenico, alcatrão, creolina, sulfurosos, ichthyol, sublimado corrosivo, naphtol, resorcina, alface e lana de Claus & Schweder, que estavam à venda nas principais farmácias e nos Grandes Armazéns Hermínios. Nesta época, a par da publicidade a medicamentos, procurou-se comercializar outros produtos, nomeadamente os sabonetes medicinais, constituídos por substâncias como ácido bórico, ácido fénico, alcatrão e creolina, que de acordo com os anúncios os sabonetes “Claus & Schweder” eram os únicos que a classe médica poderia recomendar com total confiança, sendo fabricados com todo o esmero.

No Catálogo da Exposição Industrial Portuguesa realizada em 1891 no Palácio de Cristal, na qual a Claus & Schweder participou, é referido que a fábrica possuía máquinas das mais aperfeiçoadas para o fabrico de sabonetes e perfumaria e contava com 6 homens e 14 mulheres e um motor a vapor com força de 8 cavalos. Faz ainda menção ao facto da maior parte das matérias-primas serem importadas de Inglaterra, embora fossem de origem africana.

Nesta exposição, a Claus & Schweder apresentou cinco tipos de sabonetes opacos, sabonetes transparentes e sabonetes em bola transparentes. Entre esta variedade de sabonetes destacavam-se o da marca “Rainha de Portugal”, um sabonete opaco, neutro, untuoso ao tacto, suficientemente seco e duro, produzindo muita espuma na água e apresentando um perfume delicado. Também o sabonete “Portuguez” e o “Flores do Congo” eram igualmente neutros.

Também o Catálogo da Exposição Industrial Portuguesa realizada em 1897 no Palácio de Cristal, onde a Claus & Schweder também marcou presença e foi premiada com uma medalha de ouro, faz referência aos seus métodos de fabrico de sabonetes, que são muito idênticos aos ainda hoje utilizados, com base numa notícia publicada na revista francesa “Revue des deux continentes” Nº 6 de Março de 1897, aquando de uma visita por eles realizada à fábrica Claus & Schweder.

Nesta notícia é referido que a fábrica estava localizada na Rua Serpa Pinto, nº 195, e o seu escritório e depósito era na Rua Sá da Bandeira. Possuía na altura entre 40 e 45 operários, 26 máquinas movidas a motor a vapor e produzia cerca de 140 qualidades diferentes de sabonetes, destacando-se os medicinais que eram a sua especialidade e que vendiam mais de 3.000 dúzias por mês.

Descrevem ainda outras secções da fábrica como o depósito de produtos químicos utilizados na produção dos seus produtos, nomeadamente as essências que eram caríssimas e de primeira qualidade

No que respeita às embalagens, caixas de madeira e cartão, e ainda as etiquetas e rótulos, são designados por verdadeiros trabalhos artísticos de refinado gosto.

A secção de frascaria estava repleta de frasquinhos ricamente trabalhados e provenientes do estrangeiro.

Entre os produtos produzidos, são salientadas também as águas de toilette “Violette de Parma”, a “Coriopsis do Japão” (grande perfume da moda), a “Água de Colónia” e a “Água de Cassandra”. Na perfumaria destacavam-se o “Muguet”, “Peau d’espagne”, Yiang-Yiang”, “Heliotrope”, “Lilas”, “Jasmim”, “Royal Bouquet” etc.

Em relação aos sabonetes, desde os mais vulgares aos mais finos e extrafinos, destacavam-se na época o “Violeta de Cintra”; “Marguerite”, “Rainha de Portugal”, “Luzitana”, “Rainha das Flores”, “Fleurs du Congo”, “Portuguez”, “Lilás”, “Suc-de-Laitue”, “Lana”, “Patchouly”,entre outros, e ainda os sabonetes transparentes “Santa Izabel”, “Antoninos”, “Benjoim”, etc.

 

(texto assinado por Sónia Couto, arqueóloga/investigadora)