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SABIA QUE… O SÍTIO DE FRADELOS FAZ PARTE DA HISTÓRIA DO PORTO HÁ MAIS DE 700 ANOS?

SABIA QUE… O SÍTIO DE FRADELOS FAZ PARTE DA HISTÓRIA DO PORTO HÁ MAIS DE 700 ANOS?

 

Nestes tempos de pandemia, confinamento em casa e teletrabalho, aproveitamos para revisitar algumas edições de O TRIPEIRO dos últimos anos, a centenária revista da Associação Comercial do Porto que é guardiã da história e do património da cidade desde 1908.

 

Neste caso, espreitamos a edição de dezembro de 2011 para reler a secção “Olhar e Ver” assinada pelo conhecido jornalista e divulgador da história do Porto Germano Silva.

 

Pode adquirir as edições mensais da revista O TRIPEIRO nos serviços do Palácio da Bolsa através dos contactos disponíveis na página de Facebook da Associação Comercial do Porto.

 

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O SÍTIO DE FRADELOS, ONDE HOJE FICAM AS RUAS DE FERNANDES TOMÁS E SANTA CATARINA

 

O sítio de Fradelos ficava, em tempos muito antigos, entre as atuais ruas de Fernandes Tomás, Santa Catarina e Carvalheiras. As ruas de Guedes de Azevedo e de Gonçalo Cristóvão ainda não existiam. Era, portanto, um local que ficava, naquele tempo, nos arrabaldes do velho burgo dos senhores bispos, que ocupava, praticamente, apenas o cimo do morro da Pena Ventosa. A mais antiga referência ao topónimo Fradelos que se conhece é do ano de 1283.

 

Desde há muito que o nome de Fradelos não faz parte da toponímia portuense. Mas ainda povoa o imaginário dos habitantes do Porto que continuam, por exemplo, a designar por Capela de Fradelos o templo que está na esquina das ruas de Guedes de Azevedo e de Sá da Bandeira e que, oficialmente, digamos assim, é da invocação de Nossa Senhora da Boa Hora.

O sítio de Fradelos ficava, em tempos muito antigos, entre as atuais ruas de Fernandes Tomás, Santa Catarina e Carvalheiras. As ruas de Guedes de Azevedo e de Gonçalo Cristóvão ainda não existiam. Era, portanto, um local que ficava, naquele tempo, nos arrabaldes do velho burgo dos senhores bispos, que ocupava, praticamente, apenas o cimo do morro da Pena Ventosa.

A mais antiga referência ao topónimo Fradelos que se conhece é do ano de 1283 e consta de um documento do Cabido da cidade em que se faz referência à doação que dois cidadãos do Porto – Pero Soeiro Castelo e um tal Mem de Mouro – fizeram “àquele Ilustre Cabido” de umas terras  que tinham no lugar de Fradelos.

A origem deste nome nunca foi muito bem explicada. Por vezes aparece ligada à doação que a rainha D. Teresa, mãe de D. Afonso Henriques, fez em 1120 ao bispo do Porto D. Hugo. No documento da doação, quando se faz referência aos limites do Couto, entre Germalde (hoje a zona da Lapa) e o Canal Maior (o célebre Rio da Vila, que passa por baixo da Rua de Mouzinho da Silveira e desagua no Douro, na Praça da Ribeira) alude-se a um “cortim fratrum”, ou seja, uma cortinha de frades a que, por ser coisa pequena, se dava o diminutivo de fradelos com o significado de fradinhos. Terá tudo isto algum fundo de verdade? Nós não sabemos.

Os autores que defendem a teoria atrás exposta baseiam-se numa antiga tradição que alude à existência por aqueles sítios, em épocas muito remotas, de uma pequena propriedade que teria sido adaptada a hospício de monges beneditinos. Tratar-se-ia de uma brévia ou casa de repouso aonde os religiosos recolhiam quando estavam doentes ou para se recomporem das fadigas do trabalho diário. O sítio seria propicio para esses efeitos. Tratava-se, de facto, de um local alto, o chamado Monte de Santo António do Bonjardim, com largas vistas sobre os arredores da urbe e muito arejado como convinha. Uma parte substancial deste monte foi devastada para se abrir a Rua de Gonçalo Cristóvão.

 

Na origem da Rua de Santa Catarina

 

Mas será que por ali existiu mesmo o tal hospício dos beneditinos? É mais uma dúvida ainda por esclarecer. Da posse dos terrenos doados pelos dois benfeitores, o Cabido rapidamente os transformou em dois casais (pequenas propriedades rústicas), um dos quais, no século XV, pertencia aos antepassados de um portuense ilustre, Brás Cubas, o fundador da cidade de Santos, no Brasil.

No século XVII (1662), a Quinta de Fradelos, como depois se passou a denominar o casal da família do Brás Cubas, era propriedade do Dr. João Freire de Melo que exercia, entre outros cargos, o de tesoureiro da Sé da Guarda. Havia então nessa propriedade uma ermida da invocação de Santa Catarina. Supõe-se que foi o nome desta capela que deu origem à denominação da atual Rua de Santa Catarina.

Esta quinta veio a ser adquirida, anos mais tarde, por Pedro Ramos Chaves, homem de negócios que a perdeu por dívidas, passando posteriormente (1729) para a posse do capitão Francisco Lopes Machado, que no Brasil angariara avultada fortuna. Quando morreu (1740), este oficial legou a quinta à Santa Casa da Misericórdia do Porto, que por sua vez a vendeu (1747) ao mercador Sebastião de Matos que, na altura, residia na Ferraria de Baixo, atual Rua de “O Comércio do Porto”.

No sopé do Monte de Santo António do Bonjardim, também denominado Monte de Fradelos, “terra fragosa e alcantilada” como aparece descrita, havia “uma copiosa fonte” – a Fonte de Fradelos – em cuja fachada havia um nicho onde os devotos da Virgem haviam colocado a imagem de Nossa Senhora da Boa Hora.

Em 1804, rezam as crónicas do tempo, a imagem que estava no nicho da fonte “achava-se exposta a várias indecências, em razão de estar muito rente com a rua, como muitas vezes se tinha experimentado, não só pela rapaziada de pouca consideração, mas também por outras pessoas que devendo pela sua idade reverenciar a mesma imagem, eram, pela sua dissolução, as que mais a ultrajavam…”. Quer isto dizer que a partir de certa altura se começou a notar que certas pessoas, jovens e velhos, deixaram de ter o respeito que era devido à imagem de Nossa Senhora da Boa Hora que estava junto da Fonte de Fradelos e isso incomodou, como seria de todo compreensivo, os seus fiéis devotos, na sua maioria vizinhos do sítio de Fradelos que tomaram a resolução de mandar erigir uma capela “onde a dita imagem fosse recolhida com toda a decência e respeito…”.

A primitiva capela começou a ser construída nesse mesmo ano de 1804, num terreno doado para esse efeito por Manuel Duarte e sua sogra, e com a ajuda das esmolas dos fiéis. Essa primeira ermida ficava, segundo um relato da época, “num campo que faz frente para a praça e rio onde as mulheres vão lavar e que também se chama rio de Fradelos…”.

Este ribeiro – porque era isso que ele era, e não um rio – era um dos cursos de água que seguia por terrenos onde agora está a Avenida dos Aliados e se juntava a mais dois pequenos cursos de água, junto à Porta de Carros (actual Praça de Almeida Garrett) formando, a partir dali, o famoso Rio da Vila que continua a correr, agora devidamente encanado, no subsolo da Rua de Mouzinho da Silveira.

 

(texto assinado por Germano Silva, jornalista e historiador, na secção “Olhar e Ver”)