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SABIA QUE… A ESCADA INTERIOR DA TORRE DOS CLÉRIGOS TEM 240 DEGRAUS?

SABIA QUE… A ESCADA INTERIOR DA TORRE DOS CLÉRIGOS TEM 240 DEGRAUS?

 

Nestes tempos de pandemia, aproveitamos para revisitar algumas edições de O TRIPEIRO dos últimos anos, a centenária revista da Associação Comercial do Porto que é guardiã da história e do património da cidade desde 1908. Neste caso, espreitamos um texto de Luís Costa publicado na edição de abril de 2013.

 

Pode adquirir as edições mensais da revista O TRIPEIRO nos serviços do Palácio da Bolsa através dos contactos disponíveis na página de Facebook da Associação Comercial do Porto.

 

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TORRE DOS CLÉRIGOS ACABOU DE SER CONSTRUÍDA HÁ PRECISAMENTE 250 ANOS – VAMOS TOMAR UM CHÁ NAS NUVENS?

 

No preciso mês em que se cumprem 250 anos sobre a conclusão da Torre dos Clérigos, data “redonda” que a Irmandade respetiva quer aproveitar para dar um novo fôlego ao “ex-libris” da cidade do Porto, faz mais sentido do que nunca evocar o filme publicitário ali filmado em 1917 por Raul de Caldevilla, “O Chá nas Nuvens”, e formular a pergunta que dá título a este texto…

 

Luís Costa

 

 

Indiscutivelmente, é a referência patrimonial que mais depressa se associa ao Porto, o grande ícone da cidade, o seu principal cartão-de-visita. Só no ano passado, os 240 degraus da torre desenhada por Nicolau Nasoni foram calcorreados por 150 mil pessoas, na sua maioria estrangeiros. No âmbito do vasto programa de comemorações que está em curso desde o início do ano e vai prolongar-se até finais de 2013 – tal como nos conta o Juiz da Irmandade, padre Américo Aguiar – “já está a funcionar o bilhete único, que dá direito a entrar nos Clérigos com 50 por cento de desconto” para quem visitar a Casa da Música, Serralves ou o Museu Soares dos Reis. “A ideia é cruzar os públicos, criar uma rede entre instituições da cidade que se disponibilizem para trabalhar em conjunto. Trata-se de algo que não é muito da nossa tradição…”, como sublinha o padre Américo, mas que é efetivamente a imagem de marca destas comemorações, com um programa diversificado que assenta em parcerias múltiplas: “A ideia foi provocar as instituições da cidade, da Misericórdia do Porto à Câmara Municipal, passando pelos museus, pela Universidade do Porto, pela Associação Comercial do Porto, e por muitos privados, muitos cidadãos anónimos”. Também as empresas do Porto não quiseram ficar alheadas dos 250 anos da Torre dos Clérigos, e o mais doce comprovativo disso é a coleção de bombons dos Clérigos criada pela Arcádia, lançados em finais do mês passado.

Numa aliança simbólica entre a tradição e a modernidade, o breve encontro entre O TRIPEIRO e o padre Américo Aguiar aconteceu num café multinacional do novo espaço Clérigos da renovada Praça de Lisboa, a meio de uma tarde desta chuvosa primavera. Paredes meias com o monumento que é a “menina dos seus olhos”, o Juiz da Irmandade evoca os tempos que antecederam a construção da torre, ainda no século XVII, “quando o país estava a refazer-se dos Filipes, de um período de soberania partilhada como agora [sorrisos], em que estávamos a reaprender a tomar as rédeas do nosso destino”. É nessa altura que “a cidade vê fundir-se paulatinamente três instituições: a Irmandade de S. Pedro ad Vincula, de S. Pedro prisioneiro, que funcionava no edifício da reitoria da Universidade do Porto, que foi do Colégio dos Meninos Órfãos; outra Irmandade que funcionava na Igreja dos Congregados, junto à estação de S. Bento, que é a Irmandade de S. Filipe Nery, fundador dos Padres do Oratório; e uma terceira que funcionava na Misericórdia do Porto, que fez há dias 514 anos, dedicada aos clérigos pobres. Estas três fundem-se numa Irmandade e, a certa altura, há o desejo natural de construir uma sede, de ter a sua própria igreja, porque quem casa quer casa…”, sublinha o sempre bem-disposto padre Américo Aguiar.

Resolvem então avançar “e pedem o projeto a um jovem que foi “importado” para o Porto pelo deão da catedral, o cónego presidente do cabido do Porto (pois havia sede vacante na cidade, não havia nessa altura Bispo do Porto) que convidou este jovem arquiteto chamado Nasoni para fazer algumas coisas na cidade, desde logo na catedral”.

Esta parte da história é relativamente conhecida. O mesmo não pode dizer-se da sua causa próxima, desde logo explicada pelo padre Américo: “É simples. O cónego presidente do cabido do Porto tinha familiares na ilha de Malta. Foi visitá-los numa altura em que o jovem Nasoni estava a trabalhar no Palácio da Ordem de Malta. Um dos familiares do cónego pediu-lhe para arranjar alguns trabalhos no Porto para o jovem arquitecto, uma vez que ele revelava capacidade, mas o mercado era curto, já nessa altura…”.

 

“Uma língua de terreno numa pequena encosta”

 

Chegado ao Porto, o deão da catedral desafia o jovem Nasoni a abraçar o projeto da sede da Irmandade dos Clérigos. “Existia um terreno disponível para o efeito, que fora oferecido à Irmandade, um terreno muito complicado, na verdade uma língua de terreno numa pequena encosta, junto à Porta do Olival, que era uma das portas da cidade”, conta o padre Américo Aguiar. “Entretanto, a obra começa. E é interessante registar uma primeira reacção, precisamente da Misericórdia do Porto, pois todos ficam um bocado admirados com a nobreza do edifício. E as actas da Misericórdia comprovam-no, quase em jeito de brincadeira, como quem diz: “Então aquela jovem Irmandade que saiu de nós vai ter uma sede imponente… pois aquele jovem arquiteto que venha cá fazer uns retoques à nossa igreja”. Foi assim que Nasoni acabou por fazer também a fachada da Igreja da Misericórdia na Rua das Flores. E houve também uma reação de alguma inveja, digamos assim, do abade de Santo Ildefonso, que também tinha a sua igreja em construção naquela época. De repente, todos queriam o Nasoni”.

Das comemorações em curso, destaque-se a recente recuperação da Capela de Nossa Senhora da Lapa – “aquele mimo, aquele tesourinho de 1754” –, que estava em ruínas e fechada há vários anos. A propósito desta capela que integra o monumento dos Clérigos e cuja reabertura assinalou os seis anos de D. Manuel Clemente como Bispo do Porto, o padre Américo recorda que esta “foi a capela onde começou, no Porto, a devoção a Nossa Senhora da Lapa, que depois dará origem à Ordem da Lapa e à belíssima igreja da Lapa onde está o coração de D. Pedro. Mas esta capelinha estava esquecida, abandonada e agora está belíssima”.

O ano em curso fica também marcado por um conjunto de publicações que evocam os 250 anos da Torre dos Clérigos: “Tentámos diversificar os mercados e os públicos com várias publicações, como seja a reedição de “Uma Aventura no Porto”, de Isabel Alçada e Ana Maria Magalhães, um livro de Germano Silva dedicado especificamente ao turismo, outro que se intitulará “Igreja e Torre dos Clérigos” de Francisco Queirós e Beatriz Hierro Lopes, uma obra mais centrada em Nicolau Nasoni da autoria do arquiteto Manuel Montenegro e uma pesquisa de Helder Pacheco, dividida em cinco partes, sobre a relação da cidade e dos artistas com a Torre dos Clérigos ao longo do tempo, que inclui dezenas de testemunhos da atualidade”.

E, quem sabe, se no esforço de internacionalização da Torre dos Clérigos que as comemorações visam atingir não surgirá, nos próximos tempos, a possibilidade de geminação com a Torre de Pisa ou com a Torre Eifell. Quem sabe…