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Martins da Cruz defende atlantismo e lusofonia como fatores estratégicos de Portugal na nova ordem mundial

Pelo segundo ano consecutivo, a Faculdade de Direito e Ciência Política da Universidade Lusófona do Porto escolheu o Palácio da Bolsa para lançar uma nova edição da sua revista científica 1820. Com a presença de António Tavares, professor da instituição; e Rui Albuquerque, seu subdiretor, a sessão teve o antigo embaixador e Ministro dos Negócios Estrangeiros, António Martins da Cruz, como convidado de honra, para uma reflexão sobre o posicionamento estratégico de Portugal em termos de política externa.
Na nota de abertura, Nuno Botelho contextualizou a importância deste encontro face ao “estado de conflito permanente” que caracteriza a política internacional. O presidente da Associação Comercial do Porto alertou para a escalada de agressividade entre Estados – reforçada pelas recentes operações americanas no Irão e na Venezuela – que ameaça romper a ordem estabelecida no pós-Guerra Fria.
“Estamos perante uma conflituosidade que se estende às guerras comerciais, ao protecionismo económico e às guerras de informação”, sublinhou Nuno Botelho, enfatizando a necessidade de recorrer à ciência política e à diplomacia para antecipar cenários que minimizem os riscos para Portugal e para a Europa.
“Alargamento da UE pode tornar Portugal mais periférico”
António Martins da Cruz começou a sua conferência por fazer uma longa análise à situação internacional, marcada nos últimos dias pelo ataque militar dos EUA ao território ucraniano. Com uma perspetiva crítica sobre as hesitações europeias nesta matéria, o antigo diplomata centrou-se no papel português e nos três eixos que considera estratégicos para a política externa do país: “a Europa, o Atlantismo e o espaço da Lusofonia”.
Na perspetiva comunitária, o convidado vê com preocupação o impacto que o próximo quadro orçamental europeu (2028-2034) poderá trazer para Portugal, apontando o risco de termos uma “Europa a várias velocidades” e disso resultar num afastamento estratégico de Espanha, país que hoje representa 30% do comércio externo português e com o qual, “pela primeira vez em nove séculos de história, partilhamos hoje os mesmos interesses”.
Na mesma linha, o antigo governante assinalou o risco para o nosso país de um potencial alargamento da União – “que poderá deslocar o eixo político europeu para Leste e tornar Portugal mais periférico”, referiu –; assim como o eventual fim da regra de unanimidade em decisões de política externa e uma relação mais tensa da Europa com os EUA. “A nossa segurança baseia-se na NATO e na relação com os EUA, independentemente de quem seja o seu presidente”, afirmou, mostrando-se cauteloso quanto à criação de um exército europeu que possa fragilizar a Aliança Atlântica.
Quanto à lusofonia, Martins da Cruz considerou que “a CPLP é uma mais-valia para a posição de Portugal no mundo” – sobretudo por fazer uma ponte entre a Europa e o Sul Global – assim como a diáspora nacional. “Numa nova ordem económica e mundial, nós poderemos ser periféricos na Europa, mas teremos sempre uma centralidade atlântica graças à Madeira e aos Açores e seremos também universais, graças aos nossos emigrantes que estão um pouco por todo o mundo”, referiu o ex-ministro dos Negócios Estrangeiros, que considera que a mudança do quadro internacional “está aí e anuncia-se com estrondo”, obrigando o país a estar preparado para ela.
6 de março 2026
Fotografia: Universidade Lusófona – Centro Universitário do Porto


