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Ética e liderança deram o tiro de partida para os 190 anos da Associação Comercial do Porto
Foi com casa cheia que a Associação Comercial do Porto – Câmara de Comércio e Indústria (ACP-CCIP) iniciou as comemorações dos seus 190 anos. Com 500 convidados no Pátio das Nações e um elenco distinto de conferencistas, a mais antiga associação empresarial portuguesa começou a celebrar da melhor forma esta data simbólica, com o mesmo espírito e ambição dos seus fundadores.
Isso mesmo foi transmitido por Nuno Botelho, na sessão de abertura do evento, lembrando que a Direção a que preside “persegue e prossegue a mesma linha de objetivos” que, em 1834, estimulou os homens bons do Porto a fundarem a instituição, após a extinção da Casa da Bolsa do Comércio. Em específico, o Presidente da ACP-CCIP apontou a intervenção “em nome de um interesse regional”, a representação da “comunidade de negócios” que constitui o seu corpo associativo e, por fim, a promoção de “um espírito de trabalho e de criação que foi e continua a ser a marca distintiva do Norte de Portugal”.
Olhando para o futuro da ACP-CCIP, Nuno Botelho considerou que a missão da instituição é para “aperfeiçoar e consolidar”, enunciando um conjunto de iniciativas que têm marcado os últimos tempos da Associação Comercial, como a “criação da primeira plataforma de certificação de origem digital na região Norte” ou a instalação do “maior centro de arbitragem voluntária do país”, fruto da parceria com outras duas associações empresarias.
“Com o mesmo espírito”, acrescentou, a ACP-CCIP “atua e intervém em causas públicas reconhecidas por todos” e abre o Palácio da Bolsa – a grande obra patrimonial da instituição – “às mais diferentes iniciativas, sejam elas de âmbito económico e empresarial, social, cultural, lúdico e até desportivo”.
O Presidente da Associação Comercial apontou, ainda, para outras iniciativas que visam “melhorar a estrutura da instituição”, como a recuperação do órgão consultivo – agora designado por Senado do Porto – “no intuito de apoiar a Direção a definir novos objetivos estratégicos e linhas de intervenção que correspondam às expectativas atuais dos empresários e das empresas”.
A ética em evolução e o novo perfil das lideranças
A tarde propunha a conferência Ética e Liderança nas Organizações e o primeiro orador a subir ao palanque do Pátio das Nações foi Clóvis de Barros Filho. O professor, escritor e consultor da UNESCO apresentou uma longa reflexão sobre como evoluíram os conceitos da ética, desde o pensamento aristotélico aos princípios contemporâneos.
O convidado começou por apontar as diferenças entre a noção de moral e de ética, assumindo que a primeira trabalha “com valores absolutos” – impondo uma pretensão de universalidade – e a segunda, orientada em função de “valores relativos ao espaço em que estamos inseridos”. Seguiu-se uma digressão pelas diferentes conceções filosóficas da ética, evoluindo de um princípio cósmico e associado à ordem natural das coisas para uma tendência mais consequencialista, em que o valor de um comportamento é medido em função dos resultados que provoca.
Clóvis de Barros identificou várias fragilidades nestas teorias e propôs, no final, uma visão mais relacional dos princípios éticos, em que estes, “antes de imporem o respeito”, passam mais por “estabelecer o que há de ser respeitado” em comunidade.
Seguiu-se a intervenção de Renato Janine Ribeiro, professor de filosofia e antigo Ministro da Educação brasileiro, que abordou a questão da liderança pelas diferenças entre “ser um líder e ser um chefe”. O orador recorreu a duas figuras muito conhecidas da política brasileira, para explicar o seu ponto de vista: Fernando Henrique Cardoso e Lula da Silva. Na sua perspetiva, os dois presidentes do Brasil tiveram em comum o facto de não serem técnicos, mas conseguirem “traduzir a fala técnica em linguagem comum”. Dessa forma, foram capazes de liderar o país e vencer problemas complexos. No caso de Fernando Henrique, recordou, o antigo chefe de estado muniu-se do conhecimento económico necessário para combater o problema da hiperinflação e levar a bom porto o chamado “plano Real”. Já o presidente Lula, que “não tinha o ensino médio”, assumiu a educação “como uma bandeira do seu Governo” e aplicou um ambicioso programa de escolarização por todo o país.
A conferência dos 190 anos da Associação Comercial do Porto terminou com a participação de Jorge Sequeira, psicólogo e um dos mais respeitados oradores motivacionais portugueses. Recorrendo à máxima “Dar ao Pedal” – que é o título do seu livro sobre liderança – o convidado transmitiu um conjunto de princípios ligados ao trabalho de equipa, à autonomização dos colaboradores e à reversão das tradicionais hierarquias, considerando-os como uma condição fundamental para a boa liderança das organizações.
22 de março 2024


