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Conversas na Bolsa: António Vaz Carneiro contrariou modas e defendeu que ingestão moderada de álcool “pode ter um efeito protetor na mortalidade”

Na passada sexta-feira, 20 de março, a Associação Comercial do Porto promoveu nova edição das “Conversas na Bolsa” — o seu tradicional almoço-conferência — tendo como convidado o professor catedrático jubilado da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, António Vaz Carneiro.
O também fundador do Instituto de Saúde Baseada na Evidência levou ao Senado do Porto uma reflexão crítica, transparente e apoiada nos “melhores dados científicos” sobre os efeitos do consumo de álcool na saúde. O objetivo, segundo o próprio, passa por defender a literacia em saúde e contrariar o que classificou como “mensagens deliberadamente fraudulentas” e “monstruosidades” frequentemente associadas ao tema.
“Estamos num ambiente muito nevoento, muito espúrio e com grande dose de estupidez”, afirmou, sublinhando a necessidade de maior rigor na comunicação científica. Num registo irónico, alertou ainda para os cenários excessivamente restritivos: “Se as coisas que se falam avançarem no futuro, qualquer dia, para beber vinho é preciso uma receita médica”.
Ao longo da sua intervenção, António Vaz Carneiro centrou-se na importância de serem tomadas decisões em saúde pública assentes em dados científicos robustos e não em perceções, modas ou interpretações abusivas. “A medicina transformou-se num mundo de números”, referiu, salientando, no entanto, que a interpretação desses dados continua a ser um desafio para a maioria das pessoas.
O investigador clínico destacou também as limitações da investigação em áreas como a nutrição, onde a multiplicidade de variáveis dificulta conclusões definitivas. “A dieta tem milhares de componentes e isolar o efeito de um único fator é extremamente complexo”, explicou, apontando exemplos de estudos com conclusões que considerou pouco plausíveis, como a associação direta entre o consumo de determinados alimentos e ganhos expressivos de longevidade.
No que diz respeito ao consumo de álcool, o especialista procurou quantificar aquilo que é uma dose moderada de ingestão diária – por exemplo, uma concentração de 10 a 15 gramas, por 100 a 125 ml – e assumiu que o consumo dessa dose “pode ter um efeito protetor na mortalidade em comparação com os abstémicos vitalícios”. A conclusão resulta, segundo revelou, de “um grande conjunto de evidências observacionais”, que aponta, por oposição, um “risco aumentado de mortalidade” em casos de ingestão excessiva de álcool mais do que uma vez por semana. Ainda assim, o clínico advertiu que não é aceitável, em medicina, fazer “extrapolações indevidas de dados de riscos muito pequenos para riscos muito grandes”.
Sem prescrever comportamentos, António Vaz Carneiro reforçou que o seu propósito não é dizer às pessoas “o que devem ou não fazer”, mas antes contribuir para uma melhor compreensão dos riscos e benefícios associados, promovendo uma leitura crítica da informação disponível.
Veja o resumo da conferência realizada pela Renascença, parceira oficial das Conversas na Bolsa.


