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Como potenciar o Porto: Charles Landry destacou a importância de preservar identidade local
A Associação Comercial do Porto recebeu, na passada quinta-feira, dia 18 de setembro, o ensaísta e consultor britânico, Charles Landry, uma das maiores referências internacionais na reflexão sobre a evolução e o futuro das cidades.
No Salão Árabe do Palácio da Bolsa, Landry recordou a evolução “extraordinária” que registou no Porto, desde a primeira vez que visitou a cidade, em plena década de 70 do século passado. “Era muito marcada pela escuridão. A imagem que tenho é de haver muitos edifícios como este [projetando um prédio degradado]”, recordou o orador, surpreendendo-se com a explosão turística e urbana que constatou em deslocações mais recentes à Invicta.
Ciente de que as cidades são “organismos complexos”, que funcionam mais como “um concerto de jazz improvisado do que como uma orquestra afinada”, Landry defendeu que os decisores políticos devem ser “estrategicamente orientados, mas taticamente flexíveis”, adaptando as suas escolhas às circunstâncias.
Atratividade do Porto: a necessidade de equilíbrio
Sobre o Porto, não escondeu que a atratividade que se tem gerado em torno da cidade – quer ao nível do turismo, do investimento ou da instalação de nómadas digitais e novos negócios na área tecnológica – pode suscitar ameaças. “Há cidades, como Sintra, que já muito dificilmente podemos dizer que são elas próprias. Não conseguem equilibrar o turismo, geri-lo, distribuí-lo e integrá-lo na cidade”, considerou, lembrando que “há um limite” a partir do qual a comunidade “começa a sentir-se cada vez mais defensiva”.
Para prevenir essas ameaças, Landry defendeu que o Porto “tem de ser uma cidade para todos”, sendo “crucial” defender princípios como a qualidade de vida, o lazer ou a mobilidade. Na sua perspetiva é na cidade que está “o laboratório para resolver os problemas que ela própria cria”, defendendo que o Porto tem de adotar as melhores práticas que foram aplicadas noutras cidades, por exemplo em termos de habitação: “cidades como Berlim, Barcelona, Viena ou Amesterdão conseguiram, através de regulamentação, responder a esse problema”, relembrou.
Na mesma linha, o orador apelou à participação comunitária e a um “maior diálogo” entre instituições e moradores. Na perspetiva de Charles Landry, essa aproximação traz benefícios a vários níveis, como a moderação dos locais de animação noturna ou a prevenção da criminalidade, área onde defendeu a existência de maior patrulhamento de proximidade e de equipas de intervenção social que comuniquem “com o público potencialmente mais problemático”.
Reter talento e respeitar identidade local
Ciente da importância que a atividade económica tem para o Porto e para a região, o ensaísta inglês, que cunhou a expressão “Cidade Criativa” entre os anos 80 e 90, defendeu uma solução muito própria: integrar os jovens quadros nas empresas, “através de programas de treino e estágio”, sem deixar de olhar para outros aspetos como a habitação. “Cidades como Eindhoven ou Helsínquia mostraram que é possível reter e atrair talento, garantindo que a energia e a criatividade permanecem na sua economia”, assinalou.
Landry lembrou, em jeito de conclusão, que “aquilo que distingue as grandes cidades é o que elas preservam daquilo que as distingue”. Lembrou, a propósito, Copenhaga e a forma como a capital dinamarquesa preservou o seu edificado histórico e “não deixou que todas as lojas se transformassem em cadeias multinacionais”. “A segunda coisa que fazem”, acrescentou, “é que misturam o antigo e o moderno”. Em terceiro lugar, assinalou, “mantêm as coisas à escala humana e centradas na pessoa”, evitando o que designou de sensação de “esmagamento” que se encontra em cidades como Bruxelas. A terminar, o orador defendeu “o prazer estético” como uma condição a respeitar em termos urbanísticos.
“A maioria das cidades inovadoras obtém sucesso combinando uma visão clara, burocracia criativa e governo participativo. No entanto, permanecem enraizadas na identidade, comprometidas com a equidade, abertas à experimentação e conectadas globalmente”, rematou o ensaísta e consultor.
Charles Landry esteve no Palácio da Bolsa, a convite da Associação Comercial do Porto e com o apoio da Durham Agrellos Multi Family Office, para uma conferência designada “Como Potenciar o Porto”, na antecâmara das próximas eleições autárquicas.
24 de setembro 2025


