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António Ramalho, nas Conversas na Bolsa: “Ou reorganizamos o nosso modelo ou vamos ter um conflito geracional”

Na passada sexta-feira, dia 7 de novembro, teve lugar mais uma edição das Conversas na Bolsa, o almoço-conferência que dá voz à sociedade civil e aos temas de fundo sobre a realidade social e económica do país. O convidado da Associação Comercial do Porto foi António Ramalho, antigo presidente do Novo Banco e conhecido gestor português, com percurso na banca, nos transportes e nas infraestruturas.
Ao Senado do Porto, o orador trouxe o tema “from generation gap to the generation trap”, numa reflexão onde fez o diagnóstico ao modelo de Estado Social português e europeu, identificando as suas fragilidades e os caminhos de reforma necessários à sua sustentabilidade.
No início da sua exposição, António Ramalho reconheceu o sucesso do modelo social do pós-guerra europeu, baseado num “crescimento económico sempre muito significativo” – com médias anuais de 5% que se prolongaram por décadas – num nível de endividamento controlado e num “nível de distribuição de riqueza muito equilibrado quando comparado com outras sociedades”. Este quadro, assinalou, materializava-se em estabilidade social e “num conceito de que a vida ia sempre melhorando”.
Este modelo foi, na perspetiva do convidado, resolvendo “os principais conflitos sociais na Europa”, designadamente a luta de classes e os conflitos de género, com a emancipação das mulheres no mercado de trabalho. O próprio choque geracional – “que sempre existiu”, como fez questão de assinalar – foi sendo aplacado com várias estruturas sociais, como o Estado e a escola pública; as instituições associativas e a “estrutural central da família”.
Inverno demográfico e um conflito por resolver
Olhando para a evolução deste conceito de Estado Social, António Ramalho identificou uma regressão nos últimos 20 anos, fruto de várias mudanças sociais e económicas. A primeira das quais, o “inverno demográfico”, que determina que “o crescimento natural da riqueza em função do aumento do número de pessoas já não existe”. A esse facto, soma-se, na perspetiva do gestor, a evolução “anémica” da economia europeia e a anulação da barreira do endividamento: “passamos a ter os contribuintes futuros a pagar benefícios presentes”.
Do ponto de vista comunitário, o gestor referiu ainda a “perda enorme dos mecanismos intermédios da sociedade”, com a família à cabeça, mas também outras instituições como a igreja e até o serviço militar obrigatório. Finalmente, o que considerou ser o falhanço na gestão das expectativas: “não conseguimos, pela primeira vez, prometer melhores condições de vida para as gerações seguintes”. Em síntese, para António Ramalho, o que era um gap geracional mitigado transformou-se numa “armadilha geracional” e “no verdadeiro conflito que não resolvemos e que vamos ter de resolver”.
O antigo líder da CP e das Infraestruturas de Portugal considerou que este fenómeno “tende a agravar-se”, dado que a realidade está a mostrar que “em nome da proteção dos direitos adquiridos estamos definitivamente a retirar direitos em relação a quem não os têm”. Exemplos concretos desta armadilha são, como referiu o convidado, os desafios da habitação acessível, do desemprego equitativo – num país com 5,8% de taxa de desemprego geral, os jovens chegam aos 20% –, do sistema de pensões e da gestão dos recursos disponíveis.
Estado eficiente, autoemprego e fim da gratuitidade
Não se ficando apenas pelo diagnóstico, António Ramalho quis deixar uma perspetiva construtiva e apontar soluções para resolver os desafios mencionados. A primeira ideia defendida pelo orador foi que o Estado tem de ser “sinónimo de eficiência”: “quanto menos ineficiência tivermos na gestão dos recursos, mais nós entregamos à sociedade”.
Em termos de emprego, o gestor considerou que o modelo tradicional não vai responder à armadilha geracional. “Nós não vamos conseguir retirar os direitos adquiridos dos trabalhadores e isso vai penalizar a entrada de novas pessoas no mercado”, justificou, assumindo que é necessário regressar ao modelo de autoemprego que vigorava na era pré-revolução industrial. “Temos um caso de enorme sucesso, hoje em dia, com os Ubers”, exemplificou.
Quanto ao sistema de pensões, e depois de recordar que o modelo que existe em Portugal é o de redistribuição, Ramalho defendeu a necessidade de se “fazer um processo transitório, em algum momento da história” para uma solução de capitalização. “Caso contrário, daqui a uns anos não há pensões para os novos utilizadores”, sublinhou.
Finalmente, o convidado e presidente do Fórum de Administradores e Gestores de Empresas assinalou a urgência em “acabar com a ideia aparente dos serviços gratuitos do Estado”. “Isso não existe”, acrescentou, defendendo uma definição sobre quem paga o quê. “Se continuarmos a onerar o contribuinte futuro, ele um dia vai fazer uma revolução”, alertou.
Perante um “momento decisivo”, António Ramalho concluiu a sua intervenção defendendo uma ideia de reforma profunda do Estado Social. “Ou reorganizamos o nosso modelo, em nome de princípios que estejam muito próximos daquilo que é a sua sustentabilidade, ou o conflito que vamos ter não é social, não é de género, é geracional”, assumiu.
12 de novembro 2025


