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ACP-CCIP apresentou estudo que vai “além do diagnóstico” e aponta recomendações para uma nova era no comércio com os EUA
A Associação Comercial do Porto – Câmara de Comércio e Indústria (ACP-CCIP) apresentou esta segunda-feira, dia 2 de fevereiro, o primeiro estudo realizado no nosso país para aferir os impactos económicos em Portugal decorrentes da aplicação de tarifas norte-americanas às exportações europeias.
Com execução técnica da Faculdade de Economia da Universidade do Porto (FEP), o trabalho “não se limitou a um exercício académico”, como recordou Nuno Botelho neste evento de apresentação, mas sobretudo a apontar dados concretos sobre os efeitos desta conjuntura adversa do comércio internacional “na produção, no emprego e na competitividade das empresas portuguesas”.
O presidente da ACP-CCIP acrescentou, ainda, que os resultados não apontam “apenas os impactos diretos, mas também os impactos indiretos e induzidos, que resultam do estrangulamento de mercados, da quebra de confiança e da retração do investimento”.
Recorrendo às conclusões essenciais do trabalho realizado pela FEP e ressalvando que os EUA constituem o “maior mercado extracomunitário” para as exportações nacionais – com cerca de 6,7% dos bens transacionados –, Nuno Botelho indicou que, num cenário central de 15% de tarifa, o comércio externo português pode recuar até 370 milhões num ano.
Ao nível da produção, esse decréscimo pode ser superior a 750 milhões e, em termos de emprego, as perdas podem variar entre os 4500 e os 6000 postos de trabalho. “Sinais que”, acentuou o presidente da ACP-CCIP, “infelizmente já começam a ser observados no terreno, com algumas empresas a encerrar ou a enfrentar dificuldades significativas”.
Norte pode concentrar metade das perdas de emprego
Com impactos diversos consoante a relevância do mercado norte-americano em cada setor económico, o estudo aponta para efeitos mais gravosos nos produtos petrolíferos e derivados, e no setor do ferro e aço – este com quebras potenciais superiores a 50%. Seguem-se os produtos de cortiça e madeira e ainda os equipamentos de telecomunicações. “No plano geográfico, o estudo é inequívoco, ao apontar a Região Norte como a mais negativamente afetada, uma vez que é aqui que se concentra uma parte significativa das atividades mais expostas a esta revisão tarifária, refletindo o perfil industrial e exportador desta região”, apontou Nuno Botelho. Assim, a região nortenha poderá “concentrar mais de metade das perdas de emprego estimadas e uma parte muito substancial das quebras em valor acrescentado e remunerações”, sinalizou o anfitrião, defendendo que são dados que “não podem ser ignorados”, sobretudo atendendo ao facto de se tratar de um território “que já enfrenta desafios estruturais relevantes em matéria de coesão, produtividade e rendimentos”.
O trabalho académico realizado pela FEP para a Associação Comercial do Porto “não se fica pelo diagnóstico” desta nova realidade económica, assinalou Nuno Botelho, apontando “recomendações e caminhos” que possam ajudar a mitigar os efeitos deste quadro de instabilidade comercial.
A primeira recomendação e a mais relevante, na perspectiva do dirigente, é a diversificação de mercados de exportação. Para Nuno Botelho, Portugal tem de “aproveitar a sua posição geográfica” e as “relações de proximidade com África e a América Latina” para “construir uma estratégia mais robusta e menos vulnerável a choques externos”. Nesse quadro, destacou as potencialidades que os novos acordos de comércio livre negociados pela União Europeia – com o Mercosul e a Índia – podem trazer à economia nacional, abrindo portas “às empresas onde somos competitivos e inovadores”.
Responder ao desafio com “inteligência, sentido de urgência e visão de futuro”
Este processo, pela sua complexidade e exigência temporal, convoca a União Europeia e o Estado português a desempenhar um “papel fundamental” na aplicação de uma nova estratégia comercial, assinalou o presidente da ACP-CCIP. Esse contributo, defendeu, deve centrar-se na redução de encargos fiscais e burocráticos, da modernização da administração pública e do investimento em fatores estruturais como a inovação, a qualificação, a digitalização e as infraestruturas.
Nuno Botelho concluiu esta apresentação, assumindo que a Associação Comercial do Porto continuará “ao lado das empresas, a dar voz às suas preocupações e a trabalhar para que Portugal responda a este novo contexto com inteligência, sentido de urgência e visão de futuro”.
A sessão de apresentação incluiu dois painéis de debate sobre o estudo agora apresentado. No primeiro, participaram Óscar Afonso, diretor da FEP e coordenador deste trabalho; e Carlos Moreira da Silva, presidente da Associação Business Roundtable Portugal. No segundo, foram convidados Rui Alves, professor da FEP; Mário Jorge Machado, CEO da Adalberto Textile Solutions; e Manuel Pinheiro, presidente da CVR Dão. Ambas as sessões foram apresentadas e moderadas por Diana Ramos, diretora do Jornal de Negócios, o media partner desta iniciativa. A apresentação pública do estudo Alterações Geopolíticas e ‘guerra comercial’: cenários, impactos e recomendações de política está disponível, na íntegra, no canal Youtube do Jornal de Negócios.


